Jovem é preso em flagrante após publicação sobre visita de Bolsonaro a Uberlândia

PM considerou postagem em rede social uma incitação à prática de crime contra segurança nacional. Presidente esteve na cidade de passagem antes de compromisso oficial no interior de Goiás.

Por Fabiano Rodrigues, G1 Triângulo e Alto Paranaíba

04/03/2021 16h56 Atualizado há uma hora


Um jovem de 24 anos foi preso em flagrante no início da madrugada desta quinta-feira (4) em Uberlândia, após fazer postagens referentes à visita do presidente Jair Bolsonaro (Sem partido) à cidade. A Polícia Militar considerou que João Reginaldo da Silva Júnior incitou a prática de crime contra segurança nacional ao publicar no Twitter a frase: “Gente, Bolsonaro em Udia amanhã… Alguém fecha virar herói nacional?”‘.

Bolsonaro foi recebido no aeroporto da Uberlândia, onde pousou pouco depois das 9h desta quinta, numa parada que estava fora da agenda oficial. O destino do presidente foi a cidade de São Simão, sudoeste de Goiás, onde participou da inauguração de um trecho da Ferrovia Norte-Sul.

Segundo informações do boletim de ocorrência da PM, João foi encontrado na residência onde mora com os pais e, no momento na abordagem, confirmou a publicação na rede social e foi preso em flagrante. A PM conduziu o jovem até a Delegacia da Polícia Federal em Uberlândia, onde teve a prisão ratificada pelo delegado federal Laerte Vieira Gonçalves Neto e levado para o Presídio Uberlândia 1. Por volta das 18h30 ele foi liberado por alvará de soltura.

A família disse que aguarda a liberação do jovem e a orientação do advogado sobre se darão declaração sobre o caso.

A prisão ocorreu após o serviço de inteligência da PM fazer rastreamento nas redes sociais e identificar a postagem, segundo a corporação “com propaganda e incitação à prática de crimes contra a integridade física e a vida do Exmo. Presidente da República Jair Messias Bolsonaro com promessas de que tais ameaças se concretizariam durante a sua passagem nesta cidade de Uberlândia na data de hoje”.

A publicação de João Reginaldo teve pelo menos três respostas em concordância. Segundo informação do Auto de Prisão em Flagrante da PF, os policiais militares chegaram a ir até a casa das outras três pessoas autoras das respostas, mas não conseguiu localizá-las. A Polícia Federal disse que vai continuar as investigações e todos poderão ser indiciados pelo mesmo crime.

Durante o interrogatório na Polícia Federal, João Reginaldo da Silva Júnior disse que o “tuíte” não teve nenhuma conotação de ameaça, mas apenas humor e que desconhece as pessoas que responderam ao comentário publicado por ele.

Reprodução: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2021/03/04/jovem-e-preso-apos-publicacao-sobre-vinda-de-bolsonaro-a-uberlandia.ghtml

Jovem é preso após publicação sobre visita de Bolsonaro a Uberlândia

João Reginaldo postou: “Gente, Bolsonaro em Udia amanhã… Alguém fecha virar herói nacional?”‘. Texto foi considerado incitação e ameaça

Nathalia Kuhl – 04/03/2021 19:25,atualizado 04/03/2021 19:53O presidente da República
Rafaela Felicciano/Metrópoles

A Polícia Militar prendeu em flagrante, nesta quinta-feira (4/3), um jovem de 24 anos que fez algumas postagens referentes à visita do presidente da República, Jair Bolsonaro (Sem partido), a Uberlândia (MG). Tudo ocorreu após a corporação considerar que João Reginaldo da Silva Júnior teria incitado a prática de crime contra a segurança nacional.

O jovem publicou, no Twitter, a seguinte frase: “Gente, Bolsonaro em Udia amanhã… Alguém fecha virar herói nacional?” No boletim de ocorrência da PM, consta que João foi encontrado na residência onde mora com os pais e, no momento na abordagem, confirmou a publicação na rede social e foi preso em flagrante.

Após a confirmação, a PM conduziu o jovem até a Delegacia da Polícia Federal em Uberlândia, onde teve a prisão ratificada por um delegado federal e foi levado para o Presídio Uberlândia 1. No final da tarde, a defesa do jovem conseguiu um habeas corpus e ele foi solto.

João Reginaldo da Silva Júnior disse aos agentes que o “tuíte” não teve conotação de ameaça, mas apenas humor, e que desconhecia as pessoas que responderam ao comentário publicado por ele.

Pelo menos outras três pessoas responderam na publicação concordando com João. Os agentes informaram ainda que foram até a casa das outras três pessoas autoras das respostas, mas não conseguiram localizá-las. A Polícia Federal disse que vai continuar as investigações e todos poderão ser indiciados pelo mesmo crime.

Reprodução: https://www.metropoles.com/brasil/jovem-e-preso-apos-publicacao-sobre-visita-de-bolsonaro-a-uberlandia

Entrevista: “Vou continuar emitindo sempre minha opinião científica”, diz professor processado pela CGU

Em entrevista, o epidemiologista Pedro Rodrigues Curi Hallal afirma que “se houve um processo contra mim, isso significa que as minhas críticas estão incomodando”
3 de março de 2021 – 16:25 – Alice Maciel

Crítico contumaz da condução do Governo Federal diante da pandemia de Covid-19 que já matou mais de 255 mil pessoas no Brasil, o ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o epidemiologista Pedro Rodrigues Curi Hallal, e seu colega Eraldo dos Santos Pinheiro, foram alvos de um processo na Controladoria-Geral da União (CGU) por terem se posicionado contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Para Hallal – que coordena a pesquisa Epicovid, referência no mapeamento do avanço da doença em todo o país – existe uma campanha orquestrada para silenciá-lo. “Não vai dar certo porque eu vou continuar emitindo sempre minha opinião científica sobre os assuntos”, afirmou em entrevista à Agência Pública.

“Tenho sido, se não ‘o’, um dos pesquisadores do Brasil mais críticos em relação à condução da pandemia pelo Governo Federal. E obviamente que nem todas as pessoas que criticam o presidente são processadas. Se houve um processo contra mim, isso significa que as minhas críticas estão incomodando”, destacou.

As manifestações contra o presidente que motivaram os processos na CGU ocorreram em uma transmissão ao vivo no dia 07 de janeiro, para discutir a nomeação para o cargo de reitor da universidade para a gestão 2021-2024. Na ocasião, Hallal fez duras críticas a Jair Bolsonaro e ressaltou que ele “tentou dar um golpe na comunidade [acadêmica]” ao escolher o segundo nome mais votado da lista tríplice, Isabela Fernandes Andrade – ela posteriormente decidiu dividir o cargo com o mais votado.

O processo na CGU contra os docentes foi motivado por uma representação do deputado federal bolsonarista Bibo Nunes (PSL-RS), que usou suas redes sociais para atacá-los.

Com objetivo de encerrar o procedimento, os professores optaram por assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), publicados ontem no Diário Oficial da União.

Nele, a CGU diz que Pedro Hallal proferiu “manifestação desrespeitosa e de desapreço direcionada ao Presidente da República, quando se pronunciava como reitor da UFPel”. O órgão entendeu que ele estava em “local de trabalho”, uma vez que a live foi transmitida nos canais oficiais do Youtube e do Facebook da instituição. O ato é baseado no artigo 117, V, da lei 8.112 que proíbe funcionários públicos de “promover manifestação de apreço ou desapreço no recinto da repartição”.

Hallal contou que teve que se comprometer a não infringir o artigo pelos próximos dois anos.

O que motivou o processo na CGU?

O que motivou na verdade, quem tem que julgar são vocês, os leitores ou os ouvintes. Obviamente, que eu como pesquisador não acredito em coincidências. Tenho sido, se não “o”, um dos pesquisadores do Brasil mais críticos em relação à condução da pandemia pelo Governo Federal. E obviamente que nem todas as pessoas que criticam o presidente são processadas. Se houve um processo contra mim, isso significa que as minhas críticas estão incomodando.

Mas na prática, o que aconteceu foi o seguinte. Quando o presidente não nomeou o primeiro colocado na lista tríplice da UFPel, como ele já o fez em outras universidades – em 19 outras ele já tinha feito a mesma coisa – nós realizamos uma live, eu era o reitor na época, para informar para a nossa comunidade e discutir como nós procederíamos em relação a essa não nomeação do primeiro colocado da lista. E nessa live, eu fiz uma fala de uns 14 minutos que foi bastante crítica ao presidente. Um deputado gaúcho chamado Alcíbio Nunes começou a ameaçar em várias publicações, na mídia, em vários canais e no seu próprio canal, de que ele iria me processar, que é uma vergonha para o serviço público, que eu seria demitido e coisas desse tipo. E aí, ele mandou o processo e a CGU analisou o processo.
Publicação do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) no Diário Oficial da União

E qual foi o posicionamento da CGU?

A CGU imediatamente descartou qualquer falta funcional grave que poderia ser já pena de suspensão ou demissão, e o que o relatório da CGU diz em tese é que a única infração que poderia ser investigada era essa de desapreço. Já que é uma infração de baixo potencial ofensivo, existem duas possibilidades: ou eles seguem com o processo e no final eu sou ouvido ou punido com advertência; ou eu assino um termo de ajustamento de conduta, sem reconhecimento de culpa e que arquiva imediatamente o processo

Eu conversei com meus advogados – foi umas três semanas atrás – e achei que o melhor foi isso, porque não tem reconhecimento de culpa, arquiva-se o processo e imediatamente eles são impedidos de me investigar novamente pelo mesmo assunto. E é um assunto isolado, ou seja, a tentativa de me censurar, a tentativa de me demitir que o tal do deputado clamou de que faria não funcionou e o processo foi arquivado.

Você acha que essa atitude do deputado foi uma tentativa de censura?

Deixo para os leitores julgarem se é tentativa de censura ou não. Mas não acredito em coincidência.

Você se sente perseguido pelo Governo Federal?

O presidente já tuitou diretamente contra mim. Então assim, é uma série de… Pra quem acredita em coincidência, é uma série de coincidências. Pra quem como eu foi treinado para não acreditar em coincidência como pesquisador, a gente nota que é uma campanha orquestrada e que não vai dar certo porque eu vou continuar emitindo sempre minha opinião científica sobre os assuntos. Três de quatro pessoas que morreram até hoje no Brasil de covid não deveriam ter morrido, se o governo não tivesse cometido tantos erros. E obviamente, tenho que manter a minha posição científica. Não vou mudar minha posição científica por causa desse processo, ou de qualquer outro.

Você também se sente pressionado dentro da universidade?

São ameaças nas redes sociais, algumas delas, inclusive, estão sendo investigadas pela Polícia Federal. É um extremismo radical que infelizmente aflorou novamente no país. Então, sobre isso eu deixo que os leitores, as pessoas, façam o seu julgamento, mas tenho curiosidade para saber se todos os servidores públicos que criticarem o presidente a partir de agora começarão a ser processados. Já houve época no país que isso acontecia.

Os professores têm se unido para combater esses retrocessos?

Sim, estamos unidos e atentos aos ataques contra a educação e contra a democracia.

Tem outro professor, o professor Eraldo, a situação é parecida com a sua. Além de vocês dois, algum outro professor passou por situação parecida?

Não.

Reprodução: https://apublica.org/2021/03/vou-continuar-emitindo-sempre-minha-opiniao-cientifica-diz-professor-processado-pela-cgu/

Procuradoria da Câmara pede prisão de Danilo Gentili e compara tuíte à invasão do Capitólio

March 02, 2021 – Fausto Macedo

A Procuradoria Parlamentar da Câmara dos Deputados pediu ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que decrete a prisão do humorista Danilo Gentili por um tuíte feito na semana passada, quando a Casa discutia a PEC da Impunidade. Na peça, os advogados alegam violação à Lei de Segurança Nacional, comparam a publicação à invasão do Capitólio americano, em janeiro, e pedem abertura de inquérito.

No dia 25, Gentili escreveu nas redes sociais: “Eu só acreditaria que esse País tem jeito se a população entrasse agora na câmara e socasse todo deputado que está nesse momento discutindo PEC de imunidade parlamentar”. Na ocasião, os deputados discutiam proposta que cria novas regras de imunidade parlamentar. A votação acabou sendo adiada e uma comissão especial irá avaliar a medida.

Para a Procuradoria da Câmara o tuíte de Gentili representa ‘grave ameaça à ordem pública’ e um ataque ao Poder Legislativo. Os procuradores ainda comparam o caso com a invasão do Capitólio, feita por extremistas que buscavam anular a nomeação de Joe Biden à presidência dos Estados Unidos.

“A primeira das postagens do senhor Danilo Gentili Júnior possui indisfarçável vinculação com o referido episódio, representando nítida incitação da população à subversão da ordem político-institucional e gravíssimo atentado contra a manutenção do Estado Democrático de Direito”, escrevem os advogados Patrícia Santiago, Thiago Lima Pessoa e Diana Segatto. “As redes sociais não podem servir de escudo para que os cidadãos possam cometer crimes e ficarem impunes”.

Pelas redes socias, Gentili afirmou que fez um tuíte ‘que foi alvo de justas críticas por alguns deputados’. “Quem me segue sabe que sempre defendi as instituições. Aliás, minha briga com bolsonaristas foi justamente pelo fato de eu ser contrário aos pedidos criminosos de fechamento do STF e do Congresso”, escreveu.

Eu fiz um tuíte que foi alvo de justas críticas por alguns deputados. Quem me segue sabe que sempre defendi as instituições. Aliás, minha briga com bolsonaristas foi justamente pelo fato de eu ser contrário aos pedidos criminosos de fechamento do STF e do Congresso.— Danilo Gentili (@DaniloGentili) March 1, 2021

Além do pedido de prisão do humorista, a Procuradoria da Câmara pede a abertura de um inquérito para apurar o caso e o bloqueio das publicações pelo Twitter.

COM A PALAVRA, DANILO GENTILI
No Twitter, o humorista Danilo Gentili escreveu: “Eu fiz um tuíte que foi alvo de justas críticas por alguns deputados. Quem me segue sabe que sempre defendi as instituições. Aliás, minha briga com bolsonaristas foi justamente pelo fato de eu ser contrário aos pedidos criminosos de fechamento do STF e do Congresso”.

Documento (Petição da Câmara): https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/wp-content/uploads/sites/41/2021/03/gentili1_020320213802.pdf

Reprodução: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/procuradoria-da-camara-pede-prisao-de-danilo-gentili-e-compara-tuite-a-invasao-do-capitolio/

Governo Bolsonaro censura por dois anos professores da Universidade Federal de Pelotas

Quarta-feira 03 março 2021 19:19 Por Euler de França Belém

O ex-reitor da Ufpel Pedro Hallal e o pró-reitor Eraldo dos Santos Pinheiro tiveram de assinar termos de ajustamento de conduta para evitar processo

A Universidade é o local apropriado para produzir ensino, ciência e crítica. A Universidade sem crítica pode ser tudo — menos Universidade. Ela pode ter variadas colorações ideológicas — de centro, de esquerda, de direita, anarquista. Mas precisa ser livre de amarras — quanto mais diversidade de pensamento, o que sugere uma divergência produtiva e enriquecedora, melhor para a sociedade e para o ambiente universitário. O que se espera, claro, é que se trate de uma formulação fundamentada e que se mantenha abertura ao diálogo.

Pedro Hallal: ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas | Foto: Reprodução

Recentemente, Paulo Ferreira Júnior foi eleito reitor da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. No entanto, o presidente Jair Bolsonaro, possivelmente por considerá-lo de esquerda — parece avaliar que todo aquele que não é de direita é comunista —, optou por nomear a segunda colocada, Isabela Fernandes Andrade. Apesar de ferir a prática universitária — que, da lista tríplice, sempre opta por dirigir a Universidade o mais votado —, escolher qualquer um dos três candidatos é uma prerrogativa do Ministério da Educação (na verdade, Bolsonaro é quem indica, aparentemente a partir de um “fichário” que examina as ideologias dos mestres). Mesmo tendo sido escolhida pelo Palácio do Planalto, Isabela Fernandes Andrade decidiu compartilhar o poder com Paulo Ferreira Júnior.

Mestres fizeram críticas duras mas verdadeiras

No dia 7 de janeiro deste ano, o ex-reitor da Ufpel Pedro Hallal, usando canais oficiais da Universidade no Youtube e no Facebook, criticou a decisão de Bolsonaro ao escolher a segunda colocada: “Quem tentou dar um golpe na comunidade foi o presidente da República, e eu digo presidente com ‘p’ minúsculo. Nada disso estaria acontecendo se a população não tivesse votado em defensor de torturador, em alguém que diz que mulher não merecia ser estuprada [por ser feia] ou no único chefe de Estado do mundo que defende a não vacinação da população”.

A crítica pode ser “dura”, mas o que há de falso e, portanto, de excessivo na fala de Pedro Hallal? Primeiro, ao optar pela segunda colocada, Bolsonaro não avaliou mérito acadêmico, e sim, por certo, que era menos “perigosa” ideologicamente do que o primeiro colocado. Do ponto de vista estrito do ambiente universitário, indicar o segundo e não o primeiro, pode mesmo ser considerado “golpe”. Segundo, Bolsonaro defende o coronel Brilhante Ustra, que, para a historiografia que analisa a ditadura civil-militar (1964-1985), deve ser visto como torturador. As evidências são fortes e, a rigor, nem mesmo seus aliados não dizem que não torturava. O que dizem é que estava fazendo a “coisa certa”. Terceiro, Bolsonaro disse mesmo que não estupraria a deputada Maria do Rosário, do PT, porque ela era feia. Confira a frase completa: “Ela não merece [ser estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece”.

Eraldo dos Santos Pinheiro: professor da Universidade Federal de Pelotas | Foto: Reprodução

Pedro Hallal apresentou sua crítica, embasada em fatos, não em suposições. A rigor, não há como desmenti-lo; portanto, não havia e não há como penalizá-lo judicialmente. Nenhum magistrado teria condições técnicas de condená-lo com base nas “acusações”. As palavras de Bolsonaro são “testemunhas” de defesa do professor.

O professor Eraldo dos Santos Pinheiro, pró-reitor de Extensão e Cultura da Ufpel, apresentou sua crítica: “Grupo liderado por um sujeito machista, racista, homofóbico, genocida, que exalta torturadores e milicianos. Que ao longo do tempo vem minando, destruindo as estruturas já precárias de nossas instituições”.

Assim como o reitor, o mestre Eraldo dos Santos Pinheiro fez suas críticas que, a rigor, têm amparo nos fatos, no que Bolsonaro tem dito nos últimos anos. Alguém pode dizer que Bolsonaro não é machista e homofóbico? Sobre o torturador Brilhante Ustra, o presidente disse: “É um herói nacional que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda hoje em dia quer”. Torturar pessoas que não ofereciam nenhum perigo — a guerra praticamente já havia sido vencida pelo governo militar — não é considerado heroísmo em nenhum país civilizado e democrático. Só ditaduras avaliam como “normal”.

O miliciano Adriano da Nóbrega foi condecorado pelo senador Flávio Bolsonaro quando era deputado estadual, em 2005. Questionado sobre o assunto, Bolsonaro disse: “Para que não haja dúvida [sobre a condecoração], eu determinei. Manda para cima de mim”.

Isabela Fernandes Andrade (escolhida pelo MEC) e Paulo Ferreira Júnior: reitores da Universidade Federal de Pelotas | Fotos: Reproduções

Quanto ao “genocida”, não sei se o termo é preciso para “qualificar” o presidente. Frise-se que já morreram quase 260 mil pessoas em razão de complicações decorrentes da Covid-19. Qual o grau de responsabilidade de Bolsonaro? É alto. Primeiro, porque, no lugar de seguir a ciência, não incentiva o uso de máscara — pelo contrário, estimula o não uso —, falou em gripezinha, sugeriu medicamentos não adequados para o combate à pandemia e defende, nos piores momentos da crise, que as pessoas saiam às ruas. Segundo, porque não se empenha em organizar a vacinação em massa dos brasileiros. Portanto, a história vai julgar mal — e talvez o termo “genocida” vá caracterizá-lo mais adiante. Talvez. Porque ele ainda tem tempo para, agindo como um estadista — um Rodrigues Alves —, acatando o que os especialistas dizem, contribuir, de maneira célere, para a vacinação das pessoas — que é a única maneira de salvar vidas e, ao mesmo tempo, de colaborar para recuperar a economia.

O fato é que Pedro Hallal e Eraldo dos Santos Pinheiro disseram a verdade — esquentada na frigideira dos tempos covídicos e bolsonarista.

Mesmo não mentindo, os dois mestres foram vítimas da sanha denuncista do deputado federal Bibo Nunes, do PSL do Rio Grande do Sul. O parlamentar denunciou ambos na Controladoria Geral da União. Ele queria a demissão de Pedro Hallal. Possivelmente, para fazer média com o “aliado” Bolsonaro. Estaria “abatendo” um “comunista”.

A CGU examinou os casos, a partir da Lei 8.112, “que proíbe funcionários públicos de ‘promover manifestação de apreço ou desapreço no recinto da repartição” (trecho de reportagem de Daniel Gullino, de “O Globo, publicada na quarta-feira, 3, sob o título de “CGU impõe dois anos de ‘mordaça’ a professores em troca de suspensão de processo por críticas a Bolsonaro”).

Segundo Pedro Hallal, “a CGU fez uma análise técnica do processo, corretamente, muito bem-feita, identificou que nenhuma das faltas graves mencionadas tinha ocorrido e que a única possível infração, em tese, teria sido o desapreço. Eu conversei com os meus advogados e entendemos que esse era um desfecho adequado para nós, porque era um arquivamento sumário do processo. As acusações graves a própria CGU descartou”.

Para evitar um processo judicial, tanto Pedro Hall quanto Eraldo dos Santos Pinheiro assinaram um termo de ajustamento de conduta (TAC) com a CGU. Os dois professores se comprometeram a não repetir as críticas ao presidente Bolsonaro — o “desapreço” — pelos próximos dois anos. Curiosamente, o tempo que Bolsonaro ainda terá na Presidência da República. Quer dizer, trata-se de um presidente que, segundo seus aliados e a CGU, não pode ser criticado.

Por mais que os professores tenham acatado a proposta da CGU, a partir da denúncia meramente ideológica de um deputado federal — que agiu como se fosse uma espécie de SNI —, o que se deve concluir é que o governo Bolsonaro está excedendo. O que está fazendo é censura travestida de acatamento à lei. Na verdade, como não havia nada a apurar e ser denunciado, a CGU deveria ter arquivado, de pronto, a diatribe do parlamentar.

Reprodução: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/governo-bolsonaro-censura-por-dois-anos-professores-da-universidade-federal-de-pelotas-315099/

Professores são advertidos por “manifestação desrespeitosa” a Bolsonaro

Advertência feita pela Corregedoria – Professores criticaram o presidente

Declarações dos professores foram feitas em live para discutir a nomeação do novo reitor da UFPel (Universidade Federal de Pelotas) Reprodução/Facebook UFPel

Poder360 03.mar.2021 (quarta-feira) – 9h11
A Corregedoria Geral da União advertiu 2 professores da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), no Rio Grande do Sul, por proferirem “manifestação desrespeitosa e de desapreço direcionada ao presidente da República”, Jair Bolsonaro.

Os extratos de termos de ajustamento contra Pedro Rodrigues Curi Hallal e Eraldo dos Santos Pinheiro foram publicados na edição de 3ª feira (2.mar.2021) do DOU (Diário Oficial da União). Eis as íntegras aqui (65 KB) e aqui (66 KB).

Em ambos os casos, a justificativa para a advertência é:

Proferir manifestação desrespeitosa e de desapreço direcionada ao Presidente da República, quando se pronunciava como Reitor da Universidade Federal de Pelotas – UFPel, durante transmissão ao vivo de Live nos canais oficiais do Youtube e do Facebook da Instituição, no dia 07/01/2021, que se configura como “local de trabalho” por ser um meio digital de comunicação online disponibilizado pela Universidade (art. 117, V, da Lei nº 8.112/1990)”.

Em transmissão feita em 7 de janeiro, os docentes discutiam com outros membros da universidade a nomeação do novo reitor. Na época, Pedro Hallal ainda ocupava o cargo. Ele defendeu que o “reitor eleito seja o reitor nomeado”.

Um dia antes da live, Isabela Fernandes Andrade foi nomeada por Bolsonaro como reitora da universidade. Ela, no entanto, não foi a mais votada pela comunidade acadêmica. Isabela ficou atrás do professor Paulo Ferreira Júnior.

Infelizmente, assim como aconteceu em mais de 20 universidades desse Brasil durante o desgoverno Bolsonaro, mais de 20 vezes a escolha das comunidades não foi respeitada”, disse Hallal.

Quem tentou dar um golpe na nossa comunidade foi o presidente da República”, falou. Hallal ainda chamou Bolsonaro de “defensor de torturador” e o “único chefe de Estado do mundo que defende a não vacinação da população”.

Pinheiro disse que o “golpe” foi dado por um grupo que está “devastando” o Brasil. “Grupo liderado por um sujeito machista, racista, homofóbico, genocida, que exalta torturadores e milicianos”, declarou o professor. Ele ainda acusou Bolsonaro de destruir as estruturas “já precárias” das instituições de ensino.

Hallal já foi citado por Bolsonaro. Em 14 de janeiro, o presidente postou em suas redes sociais trecho de entrevista de Hallal para a rádio Guaíba, na qual o professor fala sobre o enfrentamento da pandemia da covid-19. Ao fim da entrevista, um dos apresentadores fala sobre a “ala ideológica” de Hallal.

Reprodução: https://www.poder360.com.br/brasil/professores-sao-advertidos-por-manifestacao-desrespeitosa-a-bolsonaro/

Mulher negra é condenada a indenizar colegas que acusou de racismo

Advogado diz que ela foi punida por não ficar quietinha

Uma mulher negra que diz ter sido vítima de ofensa racial no trabalho foi condenada pela Justiça a indenizar um dos acusados em R$ 8 mil por danos morais.

Em 2016, Ana Theresa da Silva fez boletim de ocorrência acusando dois colegas de injúria. O inquérito foi arquivado. Em 2020, um dos homens citados ingressou com ação indenizatória, que foi acatada e fixada primeiro em R$ 20 mil e depois reduzida para R$ 8 mil.

A Justiça alega que no boletim de ocorrência Ana não citou injúria racial. “É evidente o abalo e as repercussões da acusação sofrida pelo requerente em sua vida pessoal e profissional”, afirma o juiz Caio Salvador Filardi.

O advogado Hédio Silva Jr., que defende Ana, afirma que a citação foi feita. “Trata-se de mais um caso, deplorável, no qual a vítima é punida por não permanecer quietinha”.

“Os magistrados não demonstraram interesse em saber se o arquivamento do inquérito se deu por inexistência de crime ou por insuficiência de provas, concluindo, decerto por excelente adivinhação, que a razão teria sido falta de provas”, afirma. Ele vai recorrer.

BRUNO B. SORAGGI, BIANKA VIEIRA e VICTORIA AZEVEDO

Reprodução: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2021/01/mulher-negra-e-condenada-a-indenizar-colegas-que-acusou-de-racismo.shtml

Sergio Moro foi o ministro da Justiça que mais abriu inquéritos para proteger um presidente nos últimos 25 anos

Moro tem motivos para se dizer traído por Bolsonaro: ele abriu mais inquéritos de crimes contra a honra do chefe do que seus antecessores somados.

Rafael Moro Martins 24 de Abril de 2020, 13h30

Sergio Moro anuncia sua renúncia ao cargo de ministro da justiça durante coletiva de imprensa em Brasília, dia 24 de abril.
Sergio Moro anúncia sua renúncia ao cargo de ministro da justiça durante coletiva de imprensa em Brasília, dia 24 de abril. Foto: Andressa Anholete/Getty Images

540 dias após avisar que havia aceito convite do então presidente eleito Jair Bolsonaro para ser ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro anunciou hoje que está pulando fora do cada vez mais frágil barco do governo.

Como sempre foi seu hábito, Moro não permitiu que jornalistas o confrontassem com perguntas embaraçosas. Em vez disso, fez um pronunciamento de quase 50 minutos em que, retomando a voz pausada e humilde das aparições públicas dos tempos de juiz federal, tentou vender uma espécie de Sergio Moro 3.0, mirando uma óbvia candidatura presidencial em 2022.

O Sergio Moro 3.0 apresentou seu antecessor, o ministro da Justiça, como um defensor da lei e da independência de órgãos como a Polícia Federal – a disputa pelo controle da instituição foi o motivo do pedido de demissão que disse que apresentará ainda nesta sexta-feira a Bolsonaro. Todas as três versões teriam em comum, na visão do agora presidenciável, “o respeito à lei, ao estado de direito, à impessoalidade”.

Simplesmente não é verdade. O Moro 1.0 sugeriu ao Ministério Público Federal uma nota à imprensa rebatendo o “showzinho” da defesa após um depoimento do então réu Luiz Inácio Lula da Silva num processo que cabia ao juiz federal julgar com isenção.

Já o Moro 2.0 foi um cão de guarda de Bolsonaro de fazer inveja ao filho 02, o vereador Carlos. Em fevereiro, quando veio à tona que o ministro da Justiça havia pedido a abertura de um inquérito por crime contra a honra do chefe, supostamente cometido num cartaz dum festival de punk rock, usei a Lei de Acesso à Informação para ver quantos pedidos desse tipo haviam sido feitos nos últimos 25 anos.

Os dados, enviados pela própria pasta comandada por Moro, indicam que o agora ex-ministro pediu 12 investigações do tipo em seus 16 meses incompletos no governo. É mais do que todas as investigações sobre crimes a honra pedidas pelos ministros da Justiça que serviram a Michel Temer, Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso somadas.

Eis os números exatos:

Em português claro, Moro viu mais crimes contra a honra de Bolsonaro em 15 meses do que uma penca de seus antecessores enxergaram nos 24 anos anteriores contra quatro ex-presidentes.

Moro mandou que a PF, que ele defende que seja técnica e autônoma, investigasse não apenas uns adolescentes punks paraenses, mas também Lula, um político, por críticas ao chefe Bolsonaro. Sabemos desses dois casos porque vieram à tona. Os alvos dos demais ainda são desconhecidos, pois o conteúdo das investigações é sigiloso.Não se viu em Moro a mesma firmeza ao tratar de casos embaraçosos para a família presidencial.

Ou Moro entendeu mal a noção de lealdade que devia ao chefe, ou não é um democrata. Dilma Rousseff foi difamada em adesivos repugnantes colados sobre o tanque de gasolina de carros no auge de sua impopularidade. Temer foi chamado de vampiro durante toda a carreira política. Lula, acusado de ter amputado o próprio dedo de propósito para não mais precisar trabalhar e de beber demais. Fernando Henrique era xingado quase que diariamente de fascista em protestos de gente inflamada – e, hoje percebemos, também mal informada sobre o real significado do termo. Não consta que nenhuma dessas agressões tenha gerado inquéritos por “crime contra a honra”.

Não se viu em Moro a mesma firmeza ao tratar de casos embaraçosos para a família presidencial. Ele deixou de fora da lista de criminosos mais procurados do país o miliciano Adriano da Nóbrega, amigo dos Bolsonaro, envolvido nas rachadinhas de Flavio, o filho 01, e possivelmente envolvido no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Nóbrega foi executado em seguida pela polícia baiana, levando ao túmulo seus segredos sobre a família Bolsonaro. Moro nunca comentou o caso.

Moro também mandou que sua Polícia Federal investigasse o porteiro do condomínio em que vivem Jair e Carlos Bolsonaro por ter dito a autoridades cariocas que Élcio Queiroz, motorista do carro usado para matar Marielle e Anderson, foi a casa do presidente no dia do crime. A investigação determinada pelo então ministro teve como alvo exclusivo o porteiro, e não todo o caso, que permanece nebuloso até hoje. Moro agiu para preservar o chefe.

Hoje, em seu depoimento de despedida, Moro falou que Bolsonaro queria no comando da PF alguém a quem “pudesse ligar, colher informações, relatórios de inteligência”. “E realmente não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informações”, asseverou, com ares de Rui Barbosa.

Também não é papel dela perseguir críticos do presidente da República. Nem é papel de um juiz federal, como ele já foi, coordenar o trabalho dos  acusadores ou oferecer informalmente aos procuradores provas contra um réu. Moro fez e mandou fazer tudo isso.

É tentador celebrar Moro por seu desembarque do bolsonarismo, que enfraquece o mais ordinário e perigoso governo que o país já teve. Mas é um erro: ele ajudou a eleger e foi durante 16 meses o fiador de um presidente que flerta abertamente com um autogolpe.

A advogada Rosângela Wolff Moro, a quem o agora ex-ministro confiou o papel de porta-voz deste os tempos da magistratura, certa vez disse ver o marido e Bolsonaro como uma coisa só. A história dificilmente deixará de fazer o mesmo.

Reprodução: https://theintercept.com/2020/04/24/sergio-moro-foi-o-ministro-da-justica-que-mais-abriu-inqueritos-para-proteger-um-presidente-nos-ultimos-25-anos/

Jornalista Madeleine Lacsko ganha mais uma ação por ataques nas redes sociais

16 de dezembro de 2020, 12h48 – Por Tábata Viapiana

Se o direito à livre expressão contrapõe-se ao direito à inviolabilidade da intimidade da vida privada, da honra e da imagem, conclui-se que este último condiciona o exercício do primeiro, de modo que o direito de informar ou manifestar uma opinião não pode importar abalo e ofensa à dignidade e imagem das pessoas, conforme pondera o artigo 220 da Constituição Federal, em sua parte final.

DivulgaçãoJornalista Madeleine Lacsko

Esse entendimento foi aplicado pelo juiz Eduardo de Lima Galduróz, da Vara do Juizado Especial Cível e Criminal de Cotia (SP), ao condenar um homem por ofensas contra a jornalista Madeleine Lacsko nas redes sociais. O réu, Alexandre Gonçalves, é comunicador de blogs bolsonaristas e, conforme os autos, foi assessor do deputado Eduardo Bolsonaro.

Segundo a jornalista, o réu a envolveu em uma postagem difamatória no Twitter que falava de uma tentativa de demissão de funcionários do Hospital Albert Einstein, que fossem contrários a opiniões dela. Ele também proferiu inúmeros xingamentos a Madeleine. Devidamente citado, o réu não apresentou contestação, sendo decretada a revelia.

Para a solução do caso, o magistrado citou os princípios constitucionais consagrados na Constituição que dispõem acerca da inviolabilidade da honra e imagem das pessoas (artigo 5ª, inciso X) e da garantia da livre expressão de comunicação e liberdade de pensamento (artigo 5ª, incisos IV, IX).

“A técnica de interpretação dos princípios constitucionais prescreve ser necessário ao seu intérprete encontrar um ponto de equilíbrio entre normas e princípios aparentemente conflitantes”, disse o juiz ao concluir que o réu usou as redes sociais para difamar a jornalista, associando a imagem dela a uma provocação de demissão de funcionários caso fossem contrários as suas ideias.

Segundo Galduróz, os prints anexados aos autos mostram uma sequência de ofensas sofridas por Madeleine, o que “evidentemente causa prejuízos à sua honra e imagem, inclusive, na esfera laboral, dado que atua no mercado digital”. Ele disse ainda que as postagens, sem prévia apuração de veracidade, configuram negligência, senão dolo eventual, e causam ofensa à honra da vítima.

“Entre as liberdades aqui em conflito, enfim, constatou-se que houve abuso no exercício de uma delas (liberdade de opinião) e que esse abuso atingiu a honra e a dignidade da autora, o que é passível de reparação”, completou o magistrado, fixando a indenização por danos morais em R$ 5 mil. Ele apenas rejeitou o pedido de reparação por não vislumbrar base legal para tanto.

Esse é o quarto processo que Madeleine ganha por ataques sofridos nas redes sociais.

Processo 1006076-57.2020.8.26.0152

Reprodução: https://www.conjur.com.br/2020-dez-16/jornalista-ganha-acao-ataques-redes-sociais/

O debate sobre o anonimato no caso do Sleeping Giants Brasil

December 15, 2020

Em entrevista publicada no último domingo, os fundadores da iniciativa Sleeping Giants Brasil, de combate à desinformação, revelaram sua identidade, por temor de estarem em risco.

O problema das fake news desafia os pressupostos e instrumentos tradicionais que costumavam reger os mecanismos de comunicação social. Ainda que o problema seja amplamente sentido, há infindável discussão sobre abordagens para combatê-lo. É sempre bom frisar que não existe uma bala de prata, mas sim a necessidade de um esforço comum de toda a sociedade para trabalhar o problema, que traz sérios riscos para a sociedade e para a democracia. Inclusive para a saúde pública, como se vê no caso da pandemia do novo coronavírus.

Assim, o esforço passa por iniciativas de diversos atores. Um deles é o Estado, que pode promover a regulação de condutas dos agentes – por exemplo, na tipificação dos crimes contra a honra. Ou, ainda, normatizar os modelos de negócios das redes sociais, protagonizando o debate sobre transparência, mediação de conteúdo ou responsabilização. Igualmente é necessária a construção de um sistema robusto de proteção de dados pessoais.

Um fator fundamental desse processo é a mobilização da sociedade civil, como pudemos acompanhar nas ações de educação digital e nas iniciativas de agências independentes de checagem de notícias. É nesse contexto que se destacou a Sleeping Giants Brasil.

A iniciativa consiste em publicar, em seu perfil nas redes sociais, educados questionamentos para as empresas cujos anúncios patrocinam sites de notícias que se tornaram notórios por disseminar desinformação.

Sua atuação está concentrada na mobilização da opinião pública para que essas empresas sejam pressionadas por seus consumidores a pararem de financiar, por meio de publicidade, sites fabricantes das chamadas fake news. Muitas vezes, esse financiamento se dá de forma desavisada, sendo promovido automaticamente pelos mecanismos de distribuição de anúncios das plataformas.

Essa tarefa de mobilização é cumprida com o uso do pseudônimo Sleeping Giants de forma absolutamente legítima, por conta dos riscos decorrentes da polarização política de nossa sociedade, refletido no grande número de ameaças, inclusive de morte, sofridas pelos autores da conta. Tal iniciativa está sendo questionada em ação judicial, que corre agora em segredo de Justiça e na qual se discute também a questão do anonimato.

É certo que a Constituição da República restringe o anonimato. Mas deve-se evitar uma interpretação reducionista. A não utilização de identidade pessoal em publicações nas redes sociais não configura nenhum ilícito por si, e muitas vezes pode ser até mesmo necessária para o exercício de liberdades fundamentais garantidas pela própria Constituição. Descabida, portanto, a alegação da existência de uma vedação peremptória e absoluta ao discurso anônimo com base na Constituição Federal.

Fatores ligados a questões políticas, denúncias ou temores quanto à segurança pessoal, situações de discriminação ou de disparidade de poderes podem justificar o uso de pseudônimo, até mesmo em formas que, de determinado ponto de vista, possam se confundir com um anonimato. Mas são situações distintas, desde que a autoria seja rastreável de forma a permitir, em caso de responsabilização, que se chegue ao real autor da postagem.

O Supremo Tribunal Federal (STF) ainda não se pronunciou de forma cabal a respeito do anonimato na internet. Em outras cortes constitucionais, o anonimato, ainda que rastreável, tem sido reconhecido e tutelado, desde que respeitados certos parâmetros.

Nos casos em que há este “anonimato rastreável” na internet, deve-se ter o cuidado, ainda, de observar os preceitos do Marco Civil da Internet, que determina a entrega de dados relativos à identidade para municiar a pessoa interessada de acervo probatório quando houver indícios de ilícito.

No caso em questão, em uma primeira decisão judicial, reconheceu-se a legitimidade do exercício da liberdade de expressão pelos usuários dos perfis do Sleeping Giants. Uma vez que o mero fato do anonimato não configura ilícito, não se pode falar que esses preceitos foram observados, especialmente por haver um temor fundado sobre a segurança pessoal e os grandes os riscos pessoais envolvidos.

Iniciativas da sociedade civil como a do Sleeping Giants Brazil são fundamentais para o combate à desinformação e a defesa da ordem democrática, além de demonstrarem vigor cívico capaz de reabrir o debate sobre as fake news em bases mais concretas e perceptíveis. Permitir a exposição de seus fundadores, sem a estrita observação desses preceitos legais, é uma ameaça à liberdade de expressão que deve ser refutada por toda a sociedade.

*Danilo Doneda é doutor em Direito Civil, advogado, professor no IDP e membro indicado pela Câmara dos Deputados para o Conselho Nacional de Proteção de Dados e Privacidade

*Estela Aranha é advogada, presidente da Comissão de Proteção de Dados e Privacidade da OAB-RJ

Reprodução: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/o-debate-sobre-o-anonimato-no-caso-do-sleep-giants-brasil/