Mark Lilla: “Há uma psicologia de intimidação e medo, uma covardia para a qual fomos arrastados”

Promotor da polêmica carta, assinada por 150 intelectuais, que denuncia a “intolerância” de certo ativismo progressista, o analista político e ensaísta norte-americano responde à onda de críticas

Andrea Aguilar Madri – 16 jul 2020 – 17:29 BRT

Mark Lilla em Madri em 2019.
Mark Lilla em Madri em 2019.Jaime Villanueva

O analista político e ensaísta Mark Lilla (Detroit, 64 anos), professor de História das Ideias na Universidade de Columbia, em Nova York, e autor, entre outros livros, de The Once and Future Liberal: After Identity Politics (“o liberal de outrora e do futuro: depois da política de identidade”) e A Mente Imprudente: os Intelectuais na Atividade Política, não tem conta no Twitter, mas não está alheio à polêmica nas redes sociais. O artigo de opinião que ele publicou no The New York Times após a vitória de Donald Trump em 2016, no qual pedia que a esquerda nos EUA abandonasse a “era do liberalismo identitário” e buscasse a unidade diante da especificidade das minorias, foi seu batismo no mundo agitado das brigas nas redes. Nesta semana, voltou ao que chama de “esgoto” decido à já célebre carta aberta publicada na Harper’s.

Lilla foi um dos promotores desse texto, que denuncia a “intolerância” de um certo ativismo progressista que tem provocado a demissão de editores e o cancelamento da publicação de livros. Os 150 intelectuais que assinaram a carta, entre eles Noam Chomsky, Gloria Steinem, Martin Amis e Margaret Atwood, reivindicam o direito de discordar sem que isso ponha em perigo o emprego de ninguém, e rejeitam a autocensura que sentem prevalecer. No calor da batalha em defesa da carta, Lilla concorda em responder a algumas perguntas por videoconferência e se mostra um pouco agitado.

Pergunta. Qual foi a origem da carta?

Resposta. Após a demissão de James Bennet, editor de opinião do The New York Times, há algumas semanas [depois de publicar um artigo do senador republicano Tom Cotton que pedia a mobilização do Exército contra os manifestantes após a morte de George Floyd], começamos a escrever uns aos outros, e esse intercâmbio de ideias finalmente deu frutos.

P. Muitos críticos apontaram que os signatários gozam de amplo reconhecimento e espaço para expor suas opiniões.

R. Desde que existe o Twitter, ninguém está silenciado, todo mundo pode entrar em qualquer discussão, e esse diferencial de poder não é exato. Reduzem tudo a uma luta pelo poder e não falam sobre o que a carta expõe. Além disso, consideram que as pessoas de uma mesma raça ou gênero tenham os mesmos interesses e opiniões, e isto foi assinado por pessoas diversas.

P. Por que não mencionaram o caso que inspirou essa iniciativa?

R. Tratava-se de denunciar o clima geral, não um caso específico. O de Bennet tem a ver com brigas no The New York Times sobre os artigos, mas também com o fato de que ele não fez seu trabalho [não leu o texto antes que fosse publicado]. O que tentamos captar é o clima, o que é complicado, porque você pode sentir a pressão atmosférica, mas isso nem sempre significa que possa apontar o que está acontecendo. As pessoas pertencentes a minorias entendem isso muito bem quando denunciam que trabalham em um lugar em que há um ambiente hostil contra elas, é muito difícil falar de coisas concretas. Acredito que hoje há uma psicologia de intimidação e medo, uma covardia para a qual fomos arrastados.

P. Como sente que a política de identidade evoluiu desde que publicou seu artigo e seu livro?

R. Como Andrew Sullivan apontou, todos nós passamos a viver em um campus universitário. Nossos filhos são educados com uma consciência racial e dentro de uma narrativa específica sobre a história dos EUA. E isso tem aspectos positivos. O assassinato de George Floyd demonstrou que o país estava preparado para abordar a questão racial. Isso é muito bom. Mas também parece ter nos levado a um tipo de política histérica e de espetáculo.

P. Como ocorreu isso?

R. Nos EUA, o que está acontecendo não é algo tão novo. No final do século XX, o país, em vez de avançar para o século XXI, retornou, na verdade, ao século XIX. E aquele século foi de fervor religioso, denúncias, censura, indiferença às artes, ignorantes. Estamos em um novo século XIX.

P. Vocês quiseram aumentar o volume e gerar debate e polêmica com a carta?

R. Vimos que ninguém estava levantando a voz contra as campanhas de perseguição. Agora temos mais 100 pessoas que querem aderir. Também achávamos que a carta seria ignorada. E, por último, estimamos que poderia provocar uma terrível tempestade, e foi o que aconteceu.

P. Quais são suas primeiras conclusões sobre essa tempestade?

R. É muito cedo, estou no meio dela, apagando incêndios a cada meia hora. É deprimente ver o nível de discussão e rancor que existe na sociedade norte-americana. Este é um momento incrivelmente importante, com a covid-19, os protestos, Trump, as eleições. É isso que preocupa as pessoas progressista, não o resto. Não sou otimista.

P. Muitos apontam que a carta faz o jogo de Trump e dá munição à direita radical. O que responde a isso?

R. O mesmo que Orwell quando falou das pessoas que querem silenciar o intelecto e o debate. Sempre dirão que, ao falar e dizer a verdade, você está beneficiando o outro lado. Mas a verdade nunca é inimiga da causa.

P. Vocês tinham consciência de que incluir J. K. Rowling seria ainda mais polêmico do que a própria carta?

R. Fizemos, no começo, uma lista para ver com quem entraríamos em contato. Alguns queriam dizer a ela, porque sofreu parte do que a carta denuncia. Não previ que isso seria uma desculpa para que algumas pessoas dissessem que o texto é transfóbico. É uma loucura, porque não há nenhuma palavra sobre esse assunto, e há algumas pessoas trans que também assinaram e foram muito atacadas. Isso mostra o tipo de fanatismo e solipsismo que existe. Malcolm Gladwell escreveu que assinou precisamente porque havia outros signatários cujos pontos de vista sobre outros assuntos ele detesta. É isso que faz com que uma sociedade seja liberal.

P. Essa discussão revigorou a classe intelectual norte-americana?

R. Na verdade, revelou como as coisas estão ruins. Alguém escreveu que talvez a carta em si não se sustente muito bem a priori, mas a reação contra ela realmente demonstrou quanta razão ela tem.

A RESPOSTA DAS “VOZES SILENCIADAS”

Dois dias depois da publicação da carta na Harper’s, veio a réplica em theobjective.substack.com. Ela questiona diretamente um dos promotores, o escritor negro Thomas Chatterton Williams, e assinala que na carta original não há nenhuma menção “às vozes que foram silenciadas durante gerações no jornalismo e no mundo acadêmico”. Embora reconheça que alguns dos casos são reais e preocupantes, nega que seja uma tendência. “A carta não aborda o problema do poder, quem tem e quem não tem”, assinala.

Também procura analisar caso a caso e abordar a história de alguns dos signatários. Por último, uma nota de esclarecimento precede a lista de novos signatários, principalmente jornalistas, deixando claro que muitos não quiseram revelar seu nome e preferiram simplesmente mencionar o veículo de comunicação para o qual trabalham. Quem fez questão de se identificar e atacou aqueles que denunciam “a cultura do cancelamento” foi a congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez: “As pessoas que são realmente canceladas não publicam suas ideias na grande mídia”.

Reprodução: https://brasil.elpais.com/cultura/2020-07-16/mark-lilla-ha-uma-psicologia-de-intimidacao-e-medo-uma-covardia-para-a-qual-fomos-arrastados.html

Censura: canal Brasileirinhos é acusado de “comentário político” e tem apoio cancelado

Por Cristian Derosa – 16/07/20204

Um dos mais conhecidos canais de humor cultural do Youtube é o mais novo alvo da campanha de censura que a internet vem enfrentando. O canal Brasileirinhos teve sua campanha excluída pela plataforma Apoia.Se. Famoso por suas sátiras políticas e culturais, a dupla Gatão e Palhaço foi deletada da plataforma sob acusação de: “comentário político”.

A campanha, intitulada “Adote Brasileirinhos” tinha a função de auxiliar no financiamento dos artistas do canal que tem 145 mil inscritos. A plataforma informou: “decidimos encerrar a campanha por definitivo, tendo em vista que não foram tomadas providências de forma tempestiva em relação à adequação da campanha aos nossos Termos de Uso”.

“Eles nunca sinalizam onde nós ‘violamos os termos de uso’, só dizem que violamos. E que tem que tirar o vídeo senão vão cortar a grana”, disse um dos donos do canal, indicando que a falta de informação sobre o minuto ou trecho que contém suposta violação deixa esses censores livres para excluir o que não gostam.

Leia abaixo a mensagem do Apoia.Se.

Prezado(a) Apoiador(a) da campanha “adote os brasileirinhos”,

A APOIA.se é uma empresa que se orgulha em trabalhar pela valorização do respeito à diversidade de ideias e à liberdade de expressão. Afinal, é isso que faz da internet um espaço plural e criativo onde comunidades de diferentes tipos podem se reunir e prosperar. Por isso estamos constantemente buscando construir um ambiente seguro, saudável e respeitoso para todos(as) nossos(as) usuários(as) e nossa comunidade.

Durante processamento regular das denúncias recebidas em nossa plataforma, verificamos que a campanha mencionada viola nossos “Termos de Uso” (https://apoia.se/terms-of-use). Por essa razão, após criteriosa análise, nós decidimos encerrar a campanha por definitivo, tendo em vista que não foram tomadas providências de forma tempestiva em relação à adequação da campanha aos nossos Termos de Uso. Os apoios cobrados com sucesso até o momento serão repassados normalmente para o Fazedor.
Entendemos que essa é uma situação delicada e que pode causar algum desapontamento. Porém, saiba que essa decisão foi tomada mediante procedimento minucioso que tem como base primordial nosso compromisso em garantir o respeito à nossa comunidade, de forma compatível com os princípios da isonomia e da legalidade. Esperamos sua compreensão.
Atenciosamente,
Equipe da APOIA.se

Ainda não se sabe se a medida tem relação com as investigações políticas da CPMI das Fake News ou se foi uma ação do movimento Sleeping Giants, composto por hackers que pressionam empresas a desligarem-se de apoios a sites, blogs ou canais que, na opinião dos hackers, dissemine “fake news”.

A liberdade na internet vive tempos sombrios desde que foi instalada a CPMI das Fake News, instrumento de perseguição política que utilizou informações do ativista conhecido como Luciano Ayan, preso na última semana acusado de lavagem de dinheiro. O ativista é ligado ao Movimento Brasil Livre e foi uma das fontes mais importantes para a construção de acusações contra sites, blogs e canais do Youtube.

Reprodução: https://www.estudosnacionais.com/26785/censura-canal-brasileirinhos-e-acusado-de-comentario-politico-e-tem-apoio-cancelado/

Idosa que chamou mulher de “chinesa porca” é indiciada por racismo e injuria

16 DE JULHO DE 2020

Idosa foi indiciada por racismo e injúria contra uma estudante brasileira. Foto: Reprodução.
IDOSA FOI INDICIADA POR RACISMO E INJÚRIA CONTRA UMA ESTUDANTE BRASILEIRA. FOTO: REPRODUÇÃO.

O caso aconteceu dentro do metrô no Rio de Janeiro

Uma idosa de 75 anos foi indiciada por racismo e injúria após chamar uma estudante brasileira de 23 anos de “chinesa porca” dentro de um vagão do metrô no Rio de Janeiro.

O caso aconteceu em janeiro deste ano e foi filmado pela estudante  Marie Okabayashi, que é descendente de japoneses.

Na época, a jovem registrou uma denúncia. Nesta quarta-feira (15), a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) concluiu o inquérito. Com a repercussão do vídeo, a senhora foi identificada e atuada.

“Quando eu passei na direção dela, ela começou a berrar. Ela gritou ‘chinesa, porca’. Eu perguntei se ela estava bem e eu saí andando. Ela disse: ‘sua nojenta, fica passando doença para todo mundo’. Ela ficou de pé me xingando e ficava mostrando o dedo do meio”, disse Maria em entrevista ao G1.

“O metrô estava lotado e ninguém falava nada, só uma menina balançava a cabeça em sinal de reprovação”, completou.

Assista ao vídeo: 

Reprodução: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/idosa-que-chamou-mulher-de-chinesa-porca-e-indiciada-por-racismo-e-injuria/

InternetLab lança recomendações para contribuir com o debate sobre o PL das Fake News

Com o objetivo de oferecer alternativas e recomendações concretas a respeito da qualidade do debate público no país e do enfrentamento das fontes de desinformação, o InternetLab publica mais uma intervenção concisa e propositiva sobre desinformação e melhoria do debate público democrático na internet. Esta proposta é resultado de um ciclo de pesquisas coletivas e individuais, e os diagnósticos e as recomendações apresentados não representam um ponto final para a discussão, mas o esforço para que ela saia de um estado que mistura negação, confusão e letargia.

Imagem com fundo roxo esrito Estratégias de proteção do debate democrático na internet: diagonósticos e recomendações número 2

A tramitação de projetos de lei de enfrentamento à desinformação se acirrou em 2020, o que sinalizou para uma necessidade de aprofundamento nos debates sobre as estratégias jurídicas adequadas para lidar com esse fenômeno no caso brasileiro. O InternetLab vem contribuindo com esse debate nos últimos meses, como no artigos “Leis para desinformação exigem mais do que boas intenções” e “A abordagem do Congresso Brasileiro à desinformação e regulamentação da plataforma coloca em risco a liberdade de expressão”, e no primeiro episódio do Antivírus, sobre desinformação e informação na rede sobre a COVID-19.

A principal premissa do InternetLab é contribuir com este debate a partir da coleta, análise e sistematização de evidências, defendendo uma abordagem que seja ao mesmo tempo funcional e comprometida com a garantia de direitos fundamentais e valores democráticos. Elaboramos, então, um documento de intervenção propositiva com estratégias para proteção do debate público e democrático online, de autoria do diretor do InternetLab, Francisco Brito Cruz, da coordenadora de pesquisa na área de informação e política, Heloisa Massaro, e da coordenadora de pesquisa na área de privacidade e vigilância, Nathalie Fragoso. Este é o segundo documento que fazemos com essa proposta, sendo o primeiro sobre desinformação nas campanhas eleitorais na internet.

Estas propostas de regulação são ao mesmo tempo importantes e de alto risco. O que está em jogo é a delimitação de uma abordagem regulatória adequada para fluxos de comunicação online que se dão em ambientes intermediados por plataformas de internet, buscando pensar as bases para um debate democrático de qualidade ao mesmo tempo que minimizando a chance de incorrer em censura colateral.

Parte de um esforço contínuo que compreende uma série de diferentes contribuições ao debate legislativo sobre o tema, este documento propõe uma abordagem regulatória cujo foco seja o enfrentamento ao comportamento abusivo ou inautêntico e não o estabelecimento de mecanismos de filtragem de conteúdo por parte das redes sociais.

Faça o download do relatório completo.

Principais Pontos

  • Eleger uma abordagem agnóstica¹ de combate ao comportamento abusivo ou inautêntico faz com que a regulação ganhe em legitimidade, pois o risco de censura ou de filtragem arbitrária de conteúdo é reduzido;
  • O combate ao comportamento abusivo ou inautêntico já é praticado por empresas de internet, e a regulação pode incentivar e facilitar que isso continue desde que esteja atenta à garantia de direitos fundamentais e determine mecanismos de transparência de tais medidas;
  • É necessário diferenciar graus de intensidade e organização por parte dos atores que se engajam em atividades abusivas ou inautênticas na internet a fim de delimitar resposta jurídica proporcional a esses incidentes;
  • A forma como se vem apresentando a alternativa de “follow the money” é inadequada. Ela aponta para a existência de um mercado cuja regulação é estratégica, mas por meio de ferramentas adequadas que não levem à criminalização do cidadão, e combinada com medidas que abordam o problema como sistêmico;
  • Diferentes estratégias jurídicas devem ser mobilizadas para enfrentar o comportamento abusivo ou inautêntico, o que pode combinar a criação de novos arranjos normativos e novas interpretações de leis e regulações já existentes. Entre tais estratégias, a via penal deve ser reservada apenas como última medida, aplicável com cautela e residualmente e somente a casos da maior gravidade, o que não foi observado em propostas em jogo no debate legislativo.

¹ Escolhemos o termo “agnóstico” para descrever uma postura regulatória que evite demandar um juízo de mérito sobre o conteúdo que circula na rede.

Reprodução: https://www.internetlab.org.br/pt/informacao-e-politica/internetlab-lanca-recomendacoes-para-contribuir-com-o-debate-sobre-o-pl-das-fake-news/

Os sábios, os tolos e os covardes, por Paula Schmitt

A carta contra Steven Pinker e a ditadura da maioria

O linguista , psicólogo e autor Steven PinkerWikimedia Commons

Paula Schmitt
16.jul.2020 (quinta-feira) – 6h00
atualizado: 16.jul.2020 (quinta-feira) – 7h22

É com pesar que informo que este artigo trata de um assunto que já abordo há tempo, mas que continua cada vez mais ameaçador. É sobre política identitária, cultura do cancelamento e a hegemonia do ofendido. É sobre a criação de uma sociedade “reformada,” uma nova civilização que finge proteger os mais necessitados, mas que está sendo construída sobre os alicerces instáveis dos emocionalmente fracos, onde a lógica que impera é determinada pela interpretação mais desequilibrada, mais infantil e com a maior dose de má-fé.

Não pensem que tenho prazer em falar desse assunto. Pra mim, discutir identidade é tão absurdo quanto debater sobre abacaxi na pizza –cada um tem um gosto, e cada gosto é subjetivo, pessoal e intransferível. O problema, obviamente, é que estamos à beira de ver o abacaxi na pizza ser obrigatório por lei, e até eu, que gosto da combinação, vou lutar pelo direito de não comê-la.

Note que a expressão que cunhei é “hegemonia do ofendido”, não hegemonia do mais fraco. Isso é um ponto crucial para entender a situação. Nenhum partícipe dessa histeria coletiva tem intenção de proteger os mais fracos, e sim os que mais reclamam, os que gritam mais alto, os que conseguem mobilizar mais gente –em outras palavras, os que têm mais poder. Não é mera coincidência o fato de não vermos nenhum protesto ou hashtag defendendo pobres, idosos ou crianças. Mas na semana passada, a lucidez teve uma pequena vitória.

São incontáveis os exemplos de cancelamento, mas o caso que hoje eu relato se destacou por ter como alvo Steven Pinker, linguista de Harvard, psicólogo e autor de vários best-sellers de ciência popular. Pinker foi alvo não de um colega, mas de mais de 600 deles. Em carta endereçada à LSA (Sociedade Linguística da América), “membros da comunidade linguística” pedem que Pinker seja retirado das listas de “acadêmicos com distinção” e de especialistas que a sociedade recomenda para lidar com a imprensa.

A carta demanda, verbatim, que a LSA “se distancie” de Pinker porque ele estaria em desacordo com seus princípios de “justiça racial.” Os assinantes da carta de acusação então enumeram 6 situações em que o racismo de Pinker estaria comprovado. Os exemplos são embaraçosos, mas reveladores: eles ilustram a seletividade desonesta de quem iniciou o tribunal de exceção pelo veredito, garimpando retroativamente tudo que puder reforçar a certeza que eles já têm. Isso fica ainda mais fácil, claro, quando o autor é prolífico –quanto mais livros publicados, mais alta a chance de que se encontre algo desabonador. Como diz a frase atribuída ao Cardinal Richelieu, “dê-me 6 linhas escritas pelo homem mais honesto e eu vou encontrar o suficiente para enforcá-lo”. Para linguistas, esse estratagema deve ser ainda mais fácil.

O primeiro exemplo do suposto racismo de Pinker foi um tweet de 2015 em que ele diz “Dados: a polícia não atira em negros desproporcionalmente”. O tweet dava o link para um artigo do New York Times no qual o autor examina estatísticas oficiais mostrando que, por um lado, 31,8% das pessoas que levaram tiro da polícia norte-americana eram negros. Isso é uma proporção duas vezes maior que a fatia de negros na população total, 13,2%. Mas por outro lado, os negros também compõem uma parcela maior entre aqueles que são detidos pela polícia (28,9% dos detidos são negros).

Para o autor do artigo, os mesmos números que revelam que negros sofrem mais violência da polícia, comparados à sua parcela na população, também revelam que eles são presos com mais frequência, e portanto têm mais chance de sofrer com a violência policial. A pergunta a ser feita então seria: por que negros são presos com mais frequência? A resposta pode ser “por racismo da polícia”, mas também pode ser porque negros nos EUA cometem mais crimes. E se for essa a resposta, então a pergunta seguinte pode ser: por que eles cometem mais crimes? Porque têm menores salários, e menor índice de escolaridade, por exemplo. E por que tem o menor índice de escolaridade e salários? Por causa do racismo político que confina negros em áreas sem escola, sem empregos etc. Isso aqui é só um exercício imaginário em busca das respostas –que precisa começar com as perguntas certas. Para quem tem interesse, aqui vai um artigo mais recente sobre esses dados.

Os pecados de Pinker foram analisados –e desbancados– pela Reason, e não cabem nesta minha coluna, mas encorajo a leitura para que se entenda a que ponto chegou essa psicopatia grupal. Quero no entanto falar de só mais um desses exemplos para alertar sobre o que pode estar a caminho do Brasil, esse país onde até as ciências sociais são importadas, mesmo que não se adequem à nossa situação, ou sejam muito inferiores ao que produzimos.

Acho importante estarmos preparados porque política e sociedade têm que ser analisadas como filme, não foto. Se a imagem estática da situação não lhe assusta, tente examinar a progressão desse filme e prever para onde ele vai. Veja em que parte do filme estávamos quando Fernando Henrique Cardoso fez o papelão vergonhoso de reclamar oficialmente com a FOX por uma piada sobre o Brasil em um episódio dos Simpsons. Veja quem se ofendia com os que se recusavam a chamar Dilma de presidenta, quando já temos uma palavra que comporta todos os gêneros. Veja ainda se essas pessoas eram as mesmas que se recusam a aceitar a palavra poetisa, porque ela diminui a poeta mulher.

Nos EUA, não é mais necessário ver para onde o filme vai, porque o filme já chegou lá. Não sou alarmista, ainda que às vezes eu pareça o filho abandonado da Cassandra com a Ave de Mau Agouro, mas a situação nos Estados Unidos é assustadora para qualquer pessoa minimamente honesta e atenta –e aqui está Noam Chomsky e dezenas de outros pensadores que não me deixam mentir. Eles assinaram uma carta aberta que denuncia a “intolerância a visões contrárias, a moda da humilhação pública, e a tendência de dissolver questões complexas em uma certeza moral que cega” e condena “os gritos por rápida e severa retribuição em resposta a supostas transgressões em palavras e pensamento”.

Até recentemente, pouquíssimos na esquerda tiveram a inteligência ou coragem de denunciar o que vem acontecendo. O silêncio generalizado da imprensa brasileira é prova disso, exceção honrosa feita à imprensa negativamente classificada como “de direita”. Quem sabe agora, com a autorização de Chomsky, a galera mais covarde se manifeste. Mas voltando à diatribe contra Pinker, no quinto exemplo da carta ele é acusado de racismo por meio de um conceito que deveria causar arrepios na espinha de qualquer pessoa sensata: uma invenção distópica e orwelliana chamada de dogwhistle, ou “apito de cachorro”.

Segundo os linguistas X-9 caçadores-de-bruxas que denunciaram Pinker à sua associação, Pinker usou um truque em que ele consegue ser racista e anunciar que é racista, mas sem que seus inimigos notem. É daí que vem a expressão “apito de cachorro” –como um assobio ultrassônico, só os cachorros ou comparsas eugenistas têm capacidade de receber a mensagem. Sabe aqueles direitistas à beira de um ataque de esquizofrenia que saem à cata de “símbolos secretos” feitos por membros dos Iluminatti e revelados “secretamente” no Instagram? Então. Na versão da esquerda, eles são essa gente cheia de energia e com muito tempo livre que sai por aí procurando algum racista que consiga assobiar e dar uma piscadinha para o comparsa ao mesmo tempo.

No caso de Pinker, seu assobio teria sido o seguinte: ele usou a expressão “violência urbana”, em clara tentativa de “enviar uma mensagem a um grupo [ao qual não pertence] enquanto envia uma segunda mensagem para seus semelhantes”. Mas o que essa expressão tem de racista?, perguntam os inteligentes. A carta dos linguistas explica: “[A palavra] ‘urbana’, enquanto dogwhistle, sinaliza um apoio disfarçado e, especialmente, refutável, a teorias que essencializam pessoas negras como inferiores e, frequentemente, como criminosas”. É isso aí, pessoal: quem precisa de racismo visível quando temos o invisível pra condenar?

Mas a LSA, diferente de instituições acadêmicas que sucumbiram à pressão do rebanho raivoso, não achou que existiam provas suficientes contra Pinker para o ostracismo acadêmico.

Isso de ver racismo onde se espera –onde se deseja– que ele exista me lembra uma vez no Twitter em que eu mencionei que confiava mais num jornalista que eu conheço do que no intelectual árabe conhecido como Angry Arab (árabe bravo), que já palestrou na universidade onde fiz meu mestrado, AUB, no Líbano. Em um tweet, eu disse a uma pessoa que debatia comigo que o pseudônimo do Angry Arab era muito apropriado. É óbvio que eu estava me referindo ao “angry”. Mas o arabista imbecilizado, Asa Winstanley, não teve dúvida: me chamou de racista, já que –ele presumiu– eu só poderia estar me referindo à inferioridade árabe do homem, não a seu estado de espírito.

Dá pra ver quem nessa conversa é o preconceituoso. Mas pra terminar isso aqui numa nota mais leve, e muito mais iluminada, traduzo um tweet de Marcellus Wiley, ex-jogador da NFL. Sob as palavras “fique esperto”, Wiley postou uma das sínteses mais simples e profundas que já vi:

A América não é dividida por raça, cor, gênero, ou orientação sexual. A América é dividida entre sábios e tolos. E os tolos se dividem entre si por raça, cor, gênero, ou orientação sexual“.

Reprodução: https://www.poder360.com.br/opiniao/internacional/os-sabios-os-tolos-e-os-covardes-por-paula-schmitt/

Moraes libera para a PF dados de contas do Facebook ligadas a gabinete de Bolsonaro

15 DE JULHO DE 2020

O ministro Alexandre de Moraes (Foto: Rosinei Coutinho / SCO / STF)
O MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES (FOTO: ROSINEI COUTINHO / SCO / STF)

A PF solicitou urgência na liberação para que os envolvidos não possam apagar os dados

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu um pedido feito pela Polícia Federal (PF) e liberou acesso aos dados coletados na investigação feita pelo Facebook em contas ligadas ao gabinete do presidente Jair Bolsonaro.

O acesso às informações foi autorizado em dois inquéritos que correm junto ao Supremo: o das fake news e o dos atos antidemocráticos.

No pedido ao STF, a PF solicitou urgência na liberação para que os envolvidos não possam apagar os dados.

O Facebook excluiu no começo do mês 88 contas e páginas que seriam ligadas a funcionários de Bolsonaro e de seus filhos, Flávio e Eduardo. Um assessor direto do presidente, Tercio Arnaud Tomaz (ex-assessor de Carlos Bolsonaro), foi apontado como 1 dos responsáveis pela administração de algumas dessas páginas.

A rede de fake news derrubada pelo Facebook também inclui os deputados estaduais Anderson Moraes e Alana Passos, ambos do PSL do Rio.

A rede social indicou que as páginas no Facebook que foram derrubadas tinham 883 mil seguidores, enquanto as contas no Instagram, 917 mil seguidores. Além disso, 350 pessoas estavam no grupo investigado.

“A atividade incluiu a criação de pessoas fictícias fingindo ser repórteres, publicação de conteúdo e gerenciamento de páginas fingindo ser veículos de notícias”, declarou o Facebook. A rede social informou que as contas agiam desde a campanha eleitoral de 2018 sem informar a verdadeira identidades dos administradores –o que viola a política interna da plataforma.

Reprodução: https://www.cartacapital.com.br/justica/moraes-libera-para-a-pf-dados-de-contas-do-facebook-ligadas-a-gabinete-de-bolsonaro/

MPF recomenda à deputada federal que comprove sua postagem discriminatória com estudos científicos

Chris Tonietto teria relacionado a pedofilia ao movimento LGBT+ e à ideologia de gênero

O Ministério Público Federal(MPF), por meio dos procuradores da República Sérgio Suiama, Ana Padilha e Renato Machado, expediu recomendação à deputada federal Chris Tonietto (PSL/RJ). O objetivo do documento é apurar uma possível irregularidade praticada por ela em uma postagem em sua rede social. Na ocasião, Christiane teria relacionado a pedofilia ao movimento LGBT+ e à ideologia de gênero.

O MPF considerou que a Constituição Federal de 1988 prevê a construção de uma sociedade livre, justa, solidária e sem preconceitos. Além disso, reflete que a expressão “ideologia de gênero” foi utilizada de forma vaga, imprecisa e descontextualizada a fim de obstacularizar o reconhecimento de direitos sexuais e equidade de gênero como consequência da dignidade da pessoa humana.

Foi considerado também que, conforme estudos, na maioria dos casos de violência sexual infanto-juvenil notificados no Brasil, o agressor é um familiar ou pessoa integrante do ambiente doméstico. Para mais, em sua publicação Chris induz falsamente a opinião pública a acreditar que todo o grupo de pessoas LGBT+ seria propenso a cometer os graves crimes que giram em torno da pedofilia, gerando preconceitos e reforçando estigmas.

Diante do exposto, o MPF resolve notificar a deputada federal para que a mesma preste explicações e apresente os estudos científicos em que se baseou para disseminar as conclusões de sua postagem, explicado ainda de forma clara qual autor relaciona o ensino de gênero nas escolas à pedofilia.

Caso Christiane não consiga comprovar seu relato, recomendou-se que ela se retrate da informação falsa divulgada em seu Facebook com o mesmo destaque da postagem anterior. Foi estabelecido o prazo de 30 dias para que a destinatária apresente as informações e esclareça as providências adotadas em relação ao seu cumprimento.

Clique aqui e leia a recomendação. 

Reprodução: http://www.mpf.mp.br/rj/sala-de-imprensa/noticias-rj/mpf-recomenda-a-deputada-federal-que-comprove-sua-postagem-discriminatoria-com-estudos-cientificos

MPF recomenda que deputada do PSL se retrate após publicação homofóbica

Christiane Tonietto (PSL/RJ) foi notificada pelo MPF e, se não justificar a afirmação, foi recomendada a se retratar - Reprodução/Instagram
Christiane Tonietto (PSL/RJ) foi notificada pelo MPF e, se não justificar a afirmação, foi recomendada a se retratar Imagem: Reprodução/Instagram

De Universa, em São Paulo 13/07/2020 15h57

O MPF (Ministério Público Federal) recomendou hoje que a deputada Christiane Tonietto (PSL/RJ) justifique, com base em evidências científicas, uma afirmação considerada homofóbica publicada em suas redes sociais. Na ocasião, a parlamentar teria relacionado a pedofilia ao movimento LGBT+.

Em nota, o órgão alertou que “a Constituição Federal prevê a construção de uma sociedade livre, justa, solidária e sem preconceitos” e afirmou que “a expressão ‘ideologia de gênero’ foi utilizada de forma vaga, imprecisa e descontextualizada”, com o objetivo de “criar obstáculos para o reconhecimento de direitos sexuais e equidade de gênero”.

O MPF lembrou, ainda, que na maioria dos casos de agressão sexual contra menores, o agressor é um homem próximo, geralmente um familiar. “Em sua publicação, Christiane Tonietto induz falsamente a opinião pública a acreditar que todo o grupo de pessoas LGBT+ seria propenso a cometer os graves crimes que giram em torno da pedofilia, gerando preconceitos e reforçando estigmas”, escreveu o MPF.

A parlamentar foi notificada e, caso não justifique a afirmação, foi recomendada a se retratar.

Reprodução: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/07/13/mpf-recomenda-que-deputada-do-psl-se-retrate-apos-publicacao-homofobica.htm

A tolerância para o debate aberto

Espécie de ajuste de contas com o passado não pode levar a uma restrição do debate, fazendo com que, a cada dia, mais assuntos, temas ou opiniões sejam proibidos

12 de julho de 2020 | 03h00

No dia 7 de julho, a revista americana Harper’s publicou em seu site uma carta assinada por mais de 150 professores, escritores e artistas de renome mundial, na qual apoiam as manifestações por justiça racial e social que se iniciaram nos Estados Unidos e se difundiram pelo mundo inteiro, após a morte de George Floyd em Minneapolis no final de maio. Ao mesmo tempo, os signatários da Carta sobre justiça e debate aberto – entre eles, Francis Fukuyama, Noam Chomsky, Gloria Steinem, J. K. Rowling e Salman Rushdie – alertam para o “clima de intolerância que se instalou por todos os lados”. O texto oferece uma interessante reflexão sobre a chamada “cultura do cancelamento”.

A carta relata perseguições que vêm ocorrendo em nome da justiça social: “Editores são demitidos por publicar materiais controvertidos, livros são removidos por suposta inautenticidade, jornalistas são impedidos de escrever sobre certos assuntos, professores são investigados por citarem livros de literatura durante a aula, um pesquisador é demitido por circular um estudo acadêmico revisado por pares”. E constata que, “quaisquer que sejam os argumentos relativos a cada caso em particular, o resultado tem sido estreitar constantemente os limites do que pode ser dito sem a ameaça de represália”.

Trata-se, portanto, de um clima oposto ao que se deve esperar de um ambiente no qual se respeitam as liberdades. Por exemplo, a liberdade de expressão significa precisamente que cada um deve dispor de tranquilidade para expressar o que bem entender, sem medo de represália ou punição. Não pode haver em um Estado Democrático de Direito mais limites à liberdade que aqueles determinados pela lei.

No entanto, os autores da carta afirmam que “a livre troca de informações e ideias, força vital de uma sociedade liberal, está se tornando cada vez mais restrita”. A atitude de censurar quem pensa de forma diferente já não está restrita a alguns grupos extremistas. Ela “está se expandindo em nossa cultura”, denunciam.

O clamor mundial por mais justiça racial e social deve levar a mudanças efetivas, como a reforma da polícia, a proibição de práticas discriminatórias ou a adoção de políticas públicas de inclusão. No entanto, essa espécie de ajuste de contas com o passado não pode levar a uma restrição do debate, fazendo com que, a cada dia, mais assuntos, temas ou opiniões sejam proibidos de serem ditos. “A restrição do debate, seja por um governo repressivo ou por uma sociedade intolerante, prejudica invariavelmente aqueles que não têm poder e torna todos menos capazes da participação democrática”, diz a carta. Diminuir a liberdade sempre tem consequências nefastas para todos, especialmente para os mais vulneráveis e os grupos minoritários.

É um erro, portanto, pensar que se pode promover a justiça reduzindo as liberdades. “Nós recusamos qualquer falsa disjuntiva entre justiça e liberdade, já que uma não pode existir sem a outra”, dizem os signatários da carta. Existem sim ideias perniciosas, que causam danos, reforçam estereótipos ou reproduzem desigualdades. Mas “o caminho para derrotar as más ideias é expor, argumentar e persuadir, e não tentar silenciá-las ou querer excluí-las”.

Um ponto especialmente importante é abordado no final do texto publicado na Harper’s. “Como escritores, precisamos de uma cultura que nos deixe espaço para a experimentação, o risco e até erros. Devemos preservar a possibilidade de discordar de boa-fé sem terríveis consequências profissionais”. Para existir liberdade, é preciso que seja permitido errar. Certamente, a liberdade inclui a correspondente responsabilidade. Eventuais danos e prejuízos causados devem ser reparados, por meio de um processo judicial isento, com respeito ao contraditório e ao direito de defesa. Nem por isso se deve deixar que alguns poucos, por gritarem mais alto ou serem mais desabridos no uso da violência, levem ao extermínio o que eles tacham de erro. Nesse modo de agir, não há liberdade, tampouco justiça. Há mera barbárie.

Reprodução: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/notas-e-informacoes,a-tolerancia-para-o-debate-aberto,70003361195

Snowden critica projeto de lei das fake news no 3º dia de Campus Party

Edward Snowden participa do último dia de Campus Party Digital Edition - Reprodução de vídeo
Edward Snowden participa do último dia de Campus Party Digital Edition – Reprodução de vídeo

Thiago Varella Colaboração para Tilt 11/07/2020 22h04

A grande estrela do terceiro dia de Campus Party foi um americano que vive exilado na Rússia depois de ter revelado um esquema de vigilância e espionagem contra os próprios cidadãos por parte do governo dos EUA. Edward Snowden é, hoje, um ativista.

“Não me arrependo de nada, a não ser de não ter feito antes. Se tivéssemos feito antes, teríamos podido reagir antes também para que fosse mais efetivo, especialmente reduzindo a quantidade de países que sofreram vigilância em massa”, disse na Campus Party Digital Edition.

Snowden também comentou o projeto de lei das Fake News que está sendo discutido no Brasil atualmente. “Eu não tenho detalhes sobre a lei, mas sabendo o estado da democracia no Brasil, não é tão surpreendente assim. Nós vemos essas leis sendo usadas para efeito político e para controlar o entendimento público da realidade”.

Para o ativista, quem propaga notícias falsas deve ser investigado e punido individualmente de acordo com a lei, mas a estratégia de transformar provedores e plataformas em polícia das fake news ou do discurso de ódio é um erro.

Internet na quebrada.

Viver nas periferias e favelas brasileiras, além de todas as dificuldades, também significa estar mais distantes dos avanços tecnológicos. Internet, na maioria das vezes, só existe nos celulares e com pacotes de dados simples e que se esgotam rapidamente. Justamente para discutir o papel da tecnologia nesses locais, o jornalista Ronaldo Matos, do blog Quebrada Tech, de Tilt, participou do palco New Horizons, na CP Digital Goiás.

“A tecnologia não só propõe combater as desigualdades sociais, mas é também um elemento estruturante que alimenta essas desigualdades”, disse. Matos também fez um alerta sobre como as empresas de tecnologia precisam mudar o olhar para os próximos anos.

“Se o rumo da inovação tecnológica não mudar nos próximos 10 anos, teremos uma geração de cidadãos brasileiros que não vão conseguir consumir tecnologia porque não terão mínimas condições de sobrevivência”.

Fim de papo

Pelo terceiro dia seguido, a Campus Party Digital Edition, em suas três edições nacional, trouxe dezenas de palestras em seus vários palcos, com foco no tema principal do evento “Reiniciando o planeta”.

Pela primeira vez, a Campus Party não foi realizada em um local físico, deixou de lado as barraquinhas e teve uma edição 100% digital.

No Brasil, a Campus Party foi concentrada em três locais: Brasília, Goiás e Manaus (Amazônia). Os três polos brasileiros contaram com diversos palcos com temáticas diferentes, como o Green Deal (energia limpa e sustentável), Joy of Live (entretenimento digital), Living Better (saúde e ciência), New Horizons (educação e cidades inteligentes) e Work Life (emprego e economia).

Tilt na CP

Neste ano, Tilt, o portal de ciência e tecnologia do UOL, foi parceiro oficial de mídia do evento. Nos três dias de Campus Party, nossos blogueiros foram convidados a palestrar. Na quinta-feira (9), Felipe Zmoginski, do blog Copy From China, iniciou a programação do palco Work Life, na CP Digital Goiás, e mostrou dez provas de que a vida não vai voltar ao normal pós-covid-19.

Os late adopters não vão voltar para a vida offline. O tiozão que não gostava de usar aplicativo de celular ou a senhora que tinha medo de usar cartão na internet passarão a usar mais o canal online Renato de Castro, do blog Cidades Mais Inteligentes, abriu o palco New Horizons, da CP Digital Goiás, para falar da experiência dele na crise do coronavírus na Itália, onde ele está vivendo e as tendências para o mundo pós-pandemia.

Reprodução: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/07/11/snowden-critica-projeto-de-lei-das-fake-news-no-3-dia-de-campus-party.htm