O observatório da liberdade de expressão é um projeto de extensão da Universidade Federal de Ouro Preto cujo objetivo é colecionar e divulgar direitos e conflitos que envolvam a liberdade de expressão.
TORCEDORES DO PALMEIRAS SE MANIFESTARAM A FAVOR DA DEMOCRACIA EM SÃO PAULO. FOTO: REPRODUÇÃO
Manifestantes pediram a saída do presidente Jair Bolsonaro
A cidade de São Paulo teve novos protestos contra o fascismo e o presidente Jair Bolsonaro, neste domingo 14. Os manifestantes se reuniram na Avenida Paulista, durante a tarde. O ato teve presença de movimentos sociais e de torcidas organizadas de times de futebol como Corinthians e Palmeiras.
Torcedores de times diferentes se uniram e ergueram faixas em que exigem a garantia do sistema democrático e repudiam a ditadura militar. Em vídeo nas redes sociais, palmeirenses marcham pela avenida e gritam “democracithiasa”, enquanto recebem aplausos de torcedores de outros times e de demais presentes na caminhada.
Os manifestantes também reivindicam a abertura de um processo de impeachment contra Bolsonaro. O chefe do Palácio de Planalto já é alvo de diferentes pedidos de impedimento no Congresso Nacional, mas o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ainda não autorizou a tramitação.
Outros participantes do ato também manifestaram palavras de ordem contra o racismo sistêmico no Brasil, com a frase “Vidas Negras Importam”. Havia ainda exigências de melhorias na assistência financeira para proteger vulneráveis durante a pandemia.
Nas imagens, muitos manifestantes aparecem usando máscaras, conforme as recomendações sanitárias contra o coronavírus. Policiais fizeram um cordão de isolamento para acompanhar o ato.
Torcida do Palmeiras sendo aplaudida pela torcida do Corinthians em SP
AS DEPUTADAS FEDERAIS JOICE HASSELMANN E CARLA ZAMBELLI, DO PSL DE SÃO PAULO. FOTO: REPRODUÇÃO/YOUTUBE
Alegado roubo de informação, tentativa de aliciamento e a suspeita de ação do serviço particular de inteligência de Bolsonaro
As deputadas Joice Hasselmann e Carla Zambelli, do PSL paulista, estão em guerra, a ponto de a primeira acusar a segunda ao Supremo Tribunal Federal (STF) de três crimes. Jair Bolsonaro diverte-se com o enrosco em fake news por parte de Joice, sua ex-líder no Congresso, e pede ao STF que a ponha na lista de investigados do inquérito que mira as milícias digitais presidenciais.
A batalha é reveladora dos métodos barra-pesada do bolsonarismo, a incluir alegado roubo de informações e, talvez, aquele serviço particular de inteligência que o presidente diz ter. Métodos que, nesse caso, estão a serviço não só da luta política, mas também da tentativa de salvar a pele de um filho do ex-capitão, o deputado federal Eduardo.
No início do ano, Joice demitiu dois assessores. Estava insatisfeita com a defesa feita dela nas redes sociais. Era atacada pelas milícias digitais bolsonaristas desde sua ida à CPI das Fake News em 4 de dezembro. Com base em seu depoimento, a CPI acionou o Facebook e recebeu, em fevereiro, uma informação a ligar um assessor de Eduardo Bolsonaro, Dudu Guimaraẽs, à criação de um perfil de fake news, o Bolsofeios. Uma prova por ora anulada pelo STF, a pedido da defesa de Guimarães.
Segundo advogados de Joice, os dois assessores demitidos tinham “acesso irrestrito” aos celulares da deputada. Após perderem o emprego, prosseguem os advogados, os dois “invadiram conversas privadas, copiaram mensagens, áudios e preparam um criminoso ‘dossiê’”.
A quem teria sido entregue o tal “dossiê”?
Em 28 de abril, Jair Bolsonaro fez comentários enigmáticos, na porta da residência presidencial, sobre fake news. “Se eu tivesse um áudio, de uma deputada muito conhecida aí, e ela passando para uma pessoa dizendo o seguinte: ‘Olha, cria mais uns perfis falsos aí pra atacar fulano de tal’. Você acha que ia pegar mal para essa deputada?”.
Quem seria ela? Bolsonaro riu e não contou. Mas deu pistas. “Tá muito ativa na CPMI (das Fake News). Acusando os outros do que ela faz. Ela não é de esquerda, não tá? É uma falsa direita” disse. E completou: “Tô evitando há mais de um mês que esse áudio chegue a conhecimento público, vai pegar muito mal pra ela. Ela é de São Paulo”.
O ex-capitão queria algo em troca para continuar “evitando”?
Naquele dia, o site R7, da Record, canal com quem o presidente se dá bem, divulgou um áudio de Joice. A bolsonarista arrependida encaixa-se na descrição feita pelo ex-capitão. “Podia falar com a turma aí para fazer vários perfis e entrar de sola no Twitter especialmente, Instagram, porque eles estão botando todas as milícias lá e os robôs em cima de mim”, afirma Joice no áudio.
Na noite de 5 de junho, o Jornal da Record divulgou áudios e mensagens de celular de Joice e da assessora de imprensa dela, Caroline Marcelino. Já a CNN Brasil levava ao ar entrevistas com dois ex-assessores da deputada, cujas identidades foram preservadas mas provavelmente são os demitidos do início do ano, em que eles relatam que Joice seria chegada a fake news.
Após as duas reportagens, Carla Zambelli ligou para Caroline, que gravou a conversa. Dizia que Joice jogaria a culpa na assessora. Em um dos áudios divulgados pela Record, Joice conversa com uma “Carol”. Em uma mensagem por escrito também divulgada, Caroline fala de um site onde é possível obter CPFs falsos. Estes eram necessários para criar mais perfis nas redes sociais.
No telefonema, Carla dizia ainda que denunciaria Joice na Procuradoria-Geral da República (PGR), que “vai ter coisas da Polícia Federal, vai ter mandado de busca e apreensão” e que Caroline talvez fosse “pega daqui a três ou quatro semanas em uma operação da Polícia Federal”.
Depois de fazer as insinuações, a deputada disse que seria melhor Caroline abandonar o gabinete de Joice. E que a ajudaria a arrumar um outro emprego: na liderança do PSL na Câmara. Ajudaria de graça? “Se você se dispor (sic) a pedir demissão, se dispor a contribuir e etc., fica melhor pra você, entendeu?”, afirmou Carla.
Para os advogados de Joice, o telefonema mostra três crimes de Carla, por trás da oferta de cargo público em troca de Caroline “contribuir”. Advocacia administrativa, tráfico de influência e constrangimento ilegal. Eles pediram ao Supremo a apreensão do telefone de Carla, para descobrir-se se ela falou com alguém da PF sobre operação a caminho. E que a corte mande o caso à PGR, para esta acusar Carla criminalmente.
O caso está no STF com Luís Roberto Barroso. Até a conclusão desta reportagem, o juiz não tinha tomado decisão quanto aos pedidos dos advogados de Joice.
O CHEFE DA SECOM, FÁBIO WAJNGARTEN (FOTO: CAROLINA ANTUNES / PR)
Informação é do jornal O Globo, e diz que a pasta deverá enviar documentos acerca dos contratos de anúncios com os portais duvidosos
O Ministério Público Federal (MPF) investiga possíveis atos de improbidade cometidos pela Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) do governo federal, após a divulgação de que de que a pasta publicou centenas de milhares de anúncios pagos em sites duvidosos. As informações são do jornal O Globo.
Um relatório pedido pela CPMI das Fake News do Congresso Nacional mostrou que a Secom veiculou anúncios em sites, canais do YouTube e aplicativos que divulgam fake news, jogos de azar, investimento ilegal e até mesmo conteúdo pornográfico.
Segundo o jornal, o MPF enviou ofícios à Secom solicitando a relação completa de todos os canais nos quais a pasta veiculou anúncios entre o dia 1º de janeiro e 10 de novembro de 2019, além da cópia dos contratos acordados com o Google Adwords, responsável pela publicação dos anúncios.
Há, também, pedidos de averiguação de responsabilidade pela criação e manutenção de dez sites, canais do YouTube e aplicativos, diz a reportagem. Entre eles, estão o canal e site oficial do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e dois aplicativos que se dedicam a defender Jair Bolsonaro.
O órgão deu 10 dias para que Fábio Wajngarten se manifeste, o que ocorrerá em meio à transição de posto do secretário, que será o número 2 do Ministério da Comunicação. A pasta terá como titular o deputado federal Fábio Faria (PSD), que também é genro de Silvio Santos, apresentador e dono da emissora SBT.
Número de páginas na Internet que pregam a supremacia branca cresceram desde 2019 e se alimentam de discursos e de gestos do presidente e de outros apoiadores, dizem estudiosos
A sombra da suástica nazista avança no Brasil de Jair Bolsonaro. Empoderados pelo discurso racista, anticomunista, armamentista e LGBTfóbico do presidente, grupos radicais de extrema direita e de inspiração hitlerista proliferam nas redes, e até se arriscam a se mostrar em pequenos grupos nas ruas com bandeiras, palavras de ordem e, por vezes, violência. O crescimento dessa vertente de ultradireita no país durante o Governo Bolsonaro pode ser quantificado na Internet. Segundo levantamento realizado pela Safernet, organização não-governamental que promove os direitos humanos na rede e monitora sites radicais, em maio de 2020 foram criadas 204 novas páginas de conteúdo neonazi, ante 42 no mesmo mês do ano passado e 28 em maio de 2018. Segundo a organização, há uma relação de casualidade entre o que diz e faz o presidente e esta radicalização nas redes. Em nota, a entidade afirmou ser “inegável que as reiteradas manifestações de ódio contra minorias por membros do Governo Bolsonaro têm empoderado as células neonazistas no Brasil”. A reportagem pediu um comentário do Planalto sobre estes dados, mas não obteve resposta.
O fenômeno do crescimento do neonazismo no país e sua atração pelo presidente também é identificado por outros estudos. A antropóloga da Universidade de Campinas Adriana Dias, especialista no tema, identificou 334 células neonazistas em atividade no país no final de 2019, a maioria ainda ativa hoje. Cada célula tem entre 3 e 30 pessoas, de acordo com ela. “Existem grupos ou células neonazistas que têm se aproximado mais do bolsonarismo e dos atos recentes de rua”, afirma Dias. Segundo ela, existem os “autointitulados soberanistas [ligados ao filósofo Olavo de Carvalho, guru intelectual do clã Bolsonaro], que aparecem em células neonazistas no Paraná, Distrito Federal, São Paulo e em Goiânia”, afirma.
Esse caldo político que tanto a Safernet como a pesquisadora apontam teve novos capítulos nos últimos meses. O mais recente ocorreu em uma manifestação pela democracia realizada em 31 de maio na avenida Paulista, quando um grupo empunhou bandeiras do grupo ucraniano radicalPravii Sektor (Setor Direito). Dias depois, o presidente postou nas redes sociais um vídeo com uma frase atribuída ao ditador fascista italiano Benito Mussolini, que foi aliado de Adolf Hitler: “É melhor um dia como leão do que cem como ovelha”. A mesma frase já havia sido usada por Donald Trump, que também é visto como tendo um discurso dúbio diante de grupos neonazis norte-americanos.
Neonazistas “decepcionados”, mas à disposição
No caso de Bolsonaro, a popularidade do presidente entre a ultradireita ficou clara já em outubro de 2018, quando ele disputou e venceu o segundo turno das eleições. Naquele mês, o número de novas páginas neonazistas em redes sociais e sites no Brasil chegou a 441 (ante 89 em setembro). Segundo a ONG Safernet, foi um pico histórico. A vitória de Bolsonaro foi comemorada em várias discussões no fórum de ódio conhecido como StormFront. O site, que usa o bordão White Pride World Wide (Orgulho Branco em Todo o Mundo), foi fundado por Don Black, ex-integrante da Ku Klux Klan —grupo racista surgido no final do século 19, mas ativo até hoje, e responsável pelo assassinato de dezenas de negros nos Estados Unidos. O tópico intitulado “Bolsonaro wins Brazil” (Bolsonaro ganha o Brasil) teve mais de 7.000 visualizações. A maioria dos comentários é feita em tom elogioso ao “ex-capitão do Exército de extrema-direita”, como é chamado por um usuário da rede. Ironicamente, o presidente é alvo de críticas no fórum racista por sua aproximação com Israel. “Eu concordo que ele é ruim na questão judaica, mas pelo menos ele está colocando descrédito na mídia e isso abre a porta pro nosso movimento”, escreveu um supremacista brasileiro no fórum.
Postagem feita no fórum neonazista ‘Stormfront’
Em um contexto global de aumento do radicalismo e da xenofobia, Bolsonaro se tornou a escolha da vez dos supremacistas na América Latina. “Todos os movimentos [neonazistas] apostaram no bolsonarismo, e alguns estão profundamente decepcionados com o presidente porque esperavam que ele fosse impor uma gestão ainda mais à direita: coisas como proibir a homossexualidade no Brasil”, afirma Dias. Uma facção ainda mais radicalizada, que de acordo com a pesquisadora corresponderia a aproximadamente 25% dos neonazistas brasileiros, esperava “uma direita totalmente radical, ultra total, e ele está namorando com isso”. O flerte do presidente com uma “intervenção militar” se tornou mais frequente nas últimas semanas, à medida em que se ventila a possibilidade de um impeachment, ainda sem chances de prosperar no Congresso, e que o próprio presidente é alvo de um inquérito para apurar aliados e familiares entram na mira de invesgações.
Um dos maiores apelos do ideário bolsonarista para os neonazistas é a questão da raça. O presidente chegou a ser acusado —e inocentado— pelo crime de racismo, e se opõe às políticas de cotas raciais. No fórum radical StormFront um dos frequentadores indaga “o que os brasileiros brancos ganham” com Bolsonaro? A resposta de outro supremacista é direta: “Ele disse que iria acabar com ações afirmativas [cotas]”.
Esta conversa exemplifica o que a antropóloga Adriana Dias considera como um discurso racista que opera em duas fases. A primeira é feita apenas para os iniciados e é explicita: seria o discurso neonazista sem rodeios, de eliminação dos negros e judeus. Esta mensagem seria pouco palatável para uma população mais ampla. Entra aí uma segunda etapa da mensagem, que é voltada para os mais leigos e não fala abertamente em supremacia branca. “Nesta fase do discurso, para os não iniciados, isso aparece como ‘os negros estão tomando o seu lugar na universidade, por causa das cotas”, diz. Dias mostra preocupação com o efeito que as falas de Bolsonaro podem ter ao fortalecer a extrema direita. “Há os nazistas [já convictos] e os que estão sendo nazificados por uma narrativa que vai penetrando na sociedade também pela voz do presidente”, explica. No StormFront, um supremacista explica sua visão do presidente: “Bolsonaro é um nazista disfarçado. Atualmente ninguém pode ser nazi abertamente, então ele escolheu espalhar a supremacia branca através do engodo e da dissimulação, como todos os políticos fazem”.
O fascínio do neonazismo com o presidente cresce com alguns gestos de Bolsonaro —que não se sabe o quanto têm de intencionalidade. O último exemplo foi um brinde com copo de leite feito pelo mandatário durante uma de suas lives sob pretexto de participar do “desafio do leite”, proposto pela Associação Brasileira dos Produtores de Leite para fortalecer o setor. O copo de leite é um dos símbolos usados por supremacistas brancos, cujo emoji ganhou força nas redes sociais radicais a ponto de substituir outro mascote neonazista: Pepe, o Sapo (personagem de uma história em quadrinhos que se tornou meme e foi apropriado por supremacistas à partir de 2015). A coincidência simbólica foi reforçada no dia seguinte pelo blogueiro e militante bolsonarista Allan dos Santos, que repetiu o gesto com a bebida e, entre risadas, falou em mensagem “subliminar”, e disse que “entendedores entenderão”. Santos é alvo de um inquérito que investiga disseminação de fake news e ataques ao Judiciário a ao Legislativo.
Bolsonaro e seu entorno já mostraram que podem ter algum grau de domínio e familiaridade com símbolos supremacistas brancos. Em 20 de fevereiro deste ano uma cena inusitada ocorreu às portas do Palácio do Alvorada, ponto de peregrinação para apoiadores do presidente. Um simpatizante se aproxima, faz o símbolo de “ok” com a mão e tira uma foto com o mandatário ao fundo. Geralmente simpático com seus eleitores, Bolsonaro mostrou certa irritação e repreendeu o jovem: “Esse gesto aí, se fosse um gesto bacana, mas desculpa, pega mal para mim”. O que teria provocado tal reação diante de um simples gesto de “ok” e feito, inclusive, com que seguranças presidenciais pedissem que a imagem fosse apagada? Bolsonaro sabia o que a enorme maioria da população nem desconfiava. O “ok” foi incorporado no gestual neonazista a ponto de ser classificado como “verdadeira expressão da supremacia branca” pela Liga Antidifamação (Anti Difamation League, em tradução livre) dos Estados Unidos, ligada à comunidade judaica.
Bolsonaro e apoiador fazendo símbolo supremacista no Alvorada.
Nada disso é coincidência, na opinião de David Nemer, professor e antropólogo na Universidade da Virginia. “Bolsonaro faz a política do apito de cachorro [do termo e inglês dog whistle politics]: usa uma linguagem codificada que parece significar uma coisa para a população em geral, mas tem significado específico para o subgrupo que ele pretende atingir. Esse subgrupo entende a mensagem e se empodera”, explica ele. “Esse grupo de extrema direita, por mais que seja a minoria na sociedade, colabora para a radicalização da base bolsonarista, que está menor, mais radical”, diz.
O que Bolsonaro ganha citando lideres fascistas como Mussolini, e fazendo gestos que podem ajudar a empoderar um pequeno setor radicalizado da sociedade? “Não é possível entender o Bolsonaro com um paradigma comum no contexto democrático, no qual o presidente vai fazer o máximo para ter apoio da maior parte da população para a reeleição. Ele não opera nesta lógica”, afirma Isabela Kalil, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “Se estamos olhando para o cálculo democrático padrão, cada eleitor é um número, um voto. Nesse caso a lógica dele não opera via número de votos. É uma lógica na qual determinados grupos, mesmo que pequenos, conseguem fazer um estrago grande na democracia, até ao declarar guerra a inimigos políticos e instituições”, diz. Ela cita como exemplo o fato de estarmos tendo que discutir “os 300 do Brasil e bandeiras ucranianas em meio a uma pandemia e sem ministro da Saúde especializado na questão”. “Esses grupos mais radicalizados estão à disposição de Bolsonaro. Se ele disser ‘estamos em guerra contra tal grupo’, alguns apoiadores não se furtarão de atacar esses opositores”.
Uma história antiga
A simpatia que os neonazistas têm pelo presidente é antiga, com mais de uma década de história. Em 2011 usuários brasileiros do site StormFront chegaram a realizar um “ato cívico” em prol do então deputado federal Jair Bolsonaro no vão livre do MASP, na avenida Paulista. “Vamos dar o nosso apoio ao único deputado que bate de frente com esses libertinos e comunistas!!!”, dizia a convocatória para o ato, mais uma vez fazendo a conexão entre o anticomunismo do parlamentar e o ideário neonazista. “O fator Bolsonaro sempre foi importante [para os neonazistas brasileiros]. Mesmo antes das eleições, todas as vezes que ele falava grupos neonazistas se manifestavam na Internet”, afirma a antropóloga Dias. Ela aponta como exemplo a criação do grupo radical Misanthropic Brasil em 2016. O surgimento do grupo, espécie de filial da entidade neonazista Misanthropic Division, coincidiu com a ascensão de Bolsonaro: aquele foi o ano em que ele anunciou que disputaria a presidência. Atualmente a seção brasileira conta com 147 membros divididos em quatro células.
Alguns simpatizantes da extrema direita chegaram até a integrar o Governo. Foi o caso do então secretário especial de Cultura do Governo Roberto Alvim, demitido em janeiro após fazer um discurso parafraseando trechos de mensagem do ex-ministro da propaganda da Alemanha nazista Joseph Goebbels. “Coincidência retórica”, disse, sem mencionar a trilha sonora do vídeo, uma ópera de Wagner, compositor favorito de Hitler.
Na época da campanha eleitoral, Bolsonaro recebeu o apoio do ex-integrante da Klan David Duke: “Ele soa como nós. E também é um candidato muito forte. É um nacionalista”, afirmou em 2018. A péssima repercussão de se ver associado a um ex-grand wizard (cargo de Duke na organização, um dos mais graduados) do mais notório grupo racista dos Estados Unidos fez com que o então candidato presidencial refutasse o endosso. “Recuso qualquer tipo de apoio vindo de grupos supremacistas. Sugiro que, por coerência, apoiem o candidato da esquerda, que adora segregar a sociedade. Explorar isso para influenciar uma eleição no Brasil é uma grande burrice! É desconhecer o povo brasileiro, que é miscigenado”, disse Bolsonaro. O mesmo que falou que seus filhos não “correm risco” de namorar negras, por teriam sido “muito bem educados”.
David Duke, ex-liderança da Ku Klux Klan.SHABAN ATHUMAN / AP
MINISTRO DO STF, ALEXANDRE DE MOARES. FOTO: ANTÔNIO CRUZ / AGÊNCIA BRASIL
Ministério informava dados acumulados, mas passou a divulgar somente números das últimas 24 horas, excluindo demais informações
O ministro Alexandre de Moares, do Supremo Tribunal Federal, mandou o Ministério da Saúde retomar a divulgação da íntegra dos dados do coronavírus em balanços diários, como estava sendo feito até a última quinta-feira. O ministro determinou que a Advocacia Geral da União (AGU) preste as informações “que entender necessárias” no prazo de 48 horas.
A decisão de Moraes, proferida na noite desta segunda-feira (8), foi baseada em uma ação apresentada pelos partidos de oposição Psol, PCdoB e Rede Sustentabilidade, que pedia a divulgação completa das informações sobre a doença no país. Na última sexta-feira, o governo federal excluiu os dados relativos ao acumulados de óbitos por covid-19, divulgando somente os números do dia.
A decisão gerou críticas de entidades de diversos setores da sociedade no Brasil e em outros países e também em diversos setores políticos e de especialistas em áreas da saúde.
“A gravidade da emergência causada pela pandemia do Covid-19 exige das autoridades brasileiras, em todos os níveis de governo, a efetivação concreta da proteção à saúde pública, com a adoção de todas as medidas possíveis para o apoio e manutenção das atividades do Sistema Único de Saúde”, escreveu Moraes na decisão.
Segundo reportagem do Estado de S. Paulo, a mudança na divulgação dos dados tem a ver com um pedido expresso do presidente Jair Bolsonaro: de fazer com que o número de mortes por coronavírus fique abaixo de mil por dia. A estratégia do Palácio do Planalto, segundo a apuração, é uma tentativa de demonstrar que não há uma escalada da doença fora de controle e, ao mesmo tempo, apontar que há um exagero da imprensa.
“Caso não sejam adotadas medidas de efetividade internacionalmente reconhecidas, dentre elas, a colheita, análise, armazenamento e divulgação de relevantes dados epidemiológicos necessários, tanto ao planejamento do poder público para tomada de decisões e encaminhamento de políticas públicas, quanto do pleno acesso da população para efetivo conhecimento da situação vivenciada no país”, acrescentou o ministro.
Alexandre de Morares também ressaltou que a publicidade é a regra na administração pública, além de ser um dos “vetores imprescindíveis”.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, JAIR BOLSONARO. FOTO: MARCOS CORRÊA/PR
Para atender a exigência, a pasta passou a separar os óbitos ocorridos nas últimas 24 horas das mortes de datas anteriores
A mudança na divulgação dos dados de coronavírus feita pelo ministério da Saúde no domingo 7 tem a ver com um pedido expresso do presidente Jair Bolsonaro: de fazer com que o número de mortes por coronavírus fique abaixo de mil por dia. A informação é trazida em reportagem do Estado de S. Paulo.
A estratégia do Palácio do Planalto, segundo a apuração, é uma tentativa de demonstrar que não há uma escalada da doença fora de controle e, ao mesmo tempo, apontar que há um exagero da imprensa.
No sábado 6, o site oficial dos dados de coronavírus no País ficou fora do ar. Quando retomado o acesso, a plataforma tinha passado a ocultar o número total de mortos no País e o número total de casos. Até o momento, são mostrados apenas os casos de mortes, casos e recuperados no período de 24 horas.
O Ministério Público Federal instaurou procedimento extrajudicial para apurar porque o Ministério da Saúde mudou a forma de divulgação dos dados do novo coronavírus no Brasil. O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, tem 72 horas para explicar essa mudança no informativo diário.
Já no domingo 7, o ministério da Saúde apresentou dados divergentes em relação à pandemia em dois levantamentos diferentes. O primeiro balanço enviado por Whatsapp por volta das 20h30 do domingo informava, em uma captura de tela de um gráfico nacional, que o Brasil totalizava 37.312 óbitos de Covid-19, com 1.382 mortes a mais com relação ao sábado.
No entanto, ao atualizar os dados em sua plataforma oficial, a pasta contabilizou aumento de 525 mortes nas últimas 24 horas – 857 mortes a menos do que o primeiro informativo da pasta.
Também houve divergência entre o número de novos casos confirmados. Enquanto o primeiro informe notificava 12.581 novos casos nas últimas 24 horas, o segundo trouxe 18.912.
Para atender ao pedido de Bolsonaro e deixar o número de mortes abaixo de mil, a pasta operou a seguinte mudança em seu levantamento: passou a separar os óbitos ocorridos nas últimas 24 horas das mortes de datas anteriores, mas que só foram confirmadas naquele período. Até a semana passada, o Ministério da Saúde somava todas as mortes confirmadas em um mesmo dia, independentemente de quando ela havia ocorrido.
O Brasil superou o número de mil mortes diárias pela primeira vez em 19 de maio. No dia 3 de junho, o país chegou a notificar 1349 mortes em 24 horas, dia em que a pasta atrasou a divulgação dos dados. No dia seguinte, novo recorde, 1473 óbitos em 24 horas e novo atraso nos dados, justificado por problema técnicos.
Nesta segunda-feira 8, o ministério da Saúde confirmou que as 525 novas mortes divulgadas no domingo é que estão corretas e alegou que houve necessidade de correção devido a dados problemáticos vindos dos Estados. Em nota, a pasta diz que os técnicos corrigiram “duplicações” e atualizaram os dados divulgados.
“Em especial, podem ser citadas a situação de Roraima, em que haviam sido publicados 762 óbitos e, após verificação do Ministério da Saúde, o número foi consolidado em 142”, informou.
No mesmo texto, o ministério informa um número total de mortes de 36.455 e 691.758 novos casos.
Os números diferem do que anuncia a plataforma Dados Transparentes, que traz as informações com base em dados das secretarias de Saúde do País. Segundo atualização feira nesta segunda-feira, o País soma 36.887 óbitos e 701.711 novos casos.
POLICIAIS CONTRA O FASCISMO. ARTE DE LATUFF/ DIVULGAÇÃO POLICIAS ANTIFASCISTAS
Documento, assinado por mais de 500 policiais, defende a democracia popular e a saída de Bolsonaro da presidência
Policias de todo o Brasil se reuniram para manifestarem apoio aos movimentos antifascistas contra o presidente Jair Bolsonaro. O documento, divulgado nesta sexta-feira 06, reúne mais de 500 assinaturas de delegados, agentes de polícia, policiais e bombeiros militares, guardas municipais, policiais penais, agentes de trânsito, policiais rodoviários federais e policiais federais.
O texto denuncia perseguições a policiais que integram grupos antifascistas e urge pela criação de uma Frente Única Antifascismo com partidos, artistas e movimentos de classe e da sociedade civil.
“Nós, policiais antifascismo, acreditamos que o trabalhador policial deve se colocar ao lado dos demais trabalhadores no enfrentamento ao fascismo. Afinal, o projeto fascista em nosso país é um projeto de avanço no ataque aos direitos conquistados pelos trabalhadores”, diz o documento.
O grupo também alerta para o perigo de uma ruptura democrática no país com as recentes movimentações do presidente Jair Bolsonaro. “A estratégia de avanço do projeto fascista no país é ampla. Mobilizam a intolerância e o ódio aos movimentos de esquerda nas ruas e nas instituições da República. Os esforços visando o aparelhamento e o comando da polícia federal e da Procuradoria Geral da República confirmam isso”, alertam os policiais.
POLICIAIS SE POSICIONAM CONTRA BOLSONARO, FOTO: MARCOS CORRÊA/PR
O movimento dos Policiais Antifascismo foi criado em 2017, inicialmente por policiais do Rio e da Bahia, depois prolongado para outros estados. O bombeiro militar de Natal, Dalchem Viana do Nascimento Ferreira, é um dos cofundadores do movimento e auxiliou na criação do manifesto. Ele afirma que o grupo defende não só o impeachment de Jair Bolsonaro, como a cassação da chapa, processo que aguarda julgamento no Tribunal Superior Eleitoral.
“A eleição foi fraudada pela indústria das fake news, que inclusive contaminou nossos colegas na segurança pública. Bolsonaro não é nacionalista é entreguista. Trai a nação quando coloca seus interesse pessoais acima dos interesses nacionais”, afirma o bombeiro.
Ferreira diz que o presidente não representa os policias e denuncia a falta de um projeto de segurança para o país. “Bolsonaro não mostrou até agora nenhuma proposta ou plano de segurança pública, não se tem nada, nem estrutural nem paliativo . Além do discurso medíocre do bandido bom é bandido morto – desde que não seja ligado aos seus familiares e amigos”, diz.
“O Movimento nasce da necessidade de contraponto para evidenciar que o sistema que permite a morte de mais de 63 mil pessoas por ano deve ser repensado. Todo esse deve ser feito longe do ambiente corporativista das instituições. Por isso defendemos que Segurança Pública não deve ser assunto só de polícia. Defendemos que esse debate deve ser ampliado para toda sociedade, para além dos muros dos quartéis”, explica Ferreira.
Na última semana, Bolsonaro atacou manifestantes do movimento antifascistas. Além de chamar de vagabundos, drogados e terroristas, o presidente compartilhou uma postagem de Donald Trump dizendo que, assim como o americano, pretendo criminalizar o movimento no país. Neste domingo 07 está marcado manifestações em todo o Brasil contrário ao capitão. Ferreira garante que os policiais antifascistas estarão ao lado do povo.
“Além desse aspecto institucional temos agora o agravamento e ameaças de cunho anti-democrático do atual presidente. O que nos impulsiona ainda mais para a necessidade de se colocar ao lado de uma democracia popular”, concluiu o bombeiro.
Gabriel Figdan foi articulador de ato na capital paranaense, onde, ao final, houve repressão policial e quebra-quebra, que o ativista atribui a infiltrados. Bolsonaro aposta em estigmatização de atos
Cartaz de protesto em Curitiba.GABRIEL FIGDAN/ARQUIVO PESSOAL
Quando decidiu ajudar a organizar um ato antirracista em Curitiba, Gabriel Figdan jamais imaginou que fosse precisar se esconder na casa de um amigo e buscar ajuda jurídica para lidar com as ameaças que começou a sofrer logo após o fim do protesto, na noite de segunda-feira. A manifestação reuniu cerca de 1.000 pessoas. Foi considerada um sucesso, já que empunhar a palavra de ordem contra opressão dos negros não é exatamente a coisa mais fácil na capital paranaense, que se vê como essencialmente branca —19,7% se declara preta ou parda, segundo o IBGE—. Mas acabou em repressão policial, quebra-quebra e com o ativista Fidgan, um ator de 21 anos, tachado de “terrorista queimador de bandeira”.
Iniciado no fim da tarde na Praça Santos Andrade, local que tradicionalmente reúne movimentos sociais e políticos em Curitiba, o ato, como em outras partes do mundo, usou palavras de ordem contra a violência policial contra os negros, na esteira da morte de João Pedro Mattos, de 14 anos, durante uma operação policial em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, e de George Floyd, nos EUA. Era também, segundo Fidgan, a oportunidade de lembrar que a pauta antirracista tem de ser permanente. “Segurança me persegue no mercado, pessoas me chamam de neguinho na rua. Já fui chamado de macaco em um jogo de futebol. O antirracismo deveria ser pauta o tempo todo”, diz.
O ato teve discursos e depoimentos. Ao final, parte dos manifestantes saiu em uma passeata pelo centro de Curitiba, o que não era a orientação das entidades envolvidas na organização. Foi quando alguns participantes quebraram estações-tubo (pontos de ônibus da cidade), vidros de bancos e queimaram a bandeira do Brasil em frente ao Palácio Iguaçu, sede do Governo estadual. Tiros de bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram usadas pela Polícia Militar para dispersão.
“Antes disso, o ato foi um sucesso. Reuniu muitas pessoas, teve uma atmosfera esperançosa, por dias melhores”, lamenta o ator. Figdan e as entidades envolvidas divulgaram uma nota em que afirmam que os atos de vandalismo são “suspeitos”, e “representam a presença organizada de infiltrados que desejam a criminalização do movimento”. Também criticaram “o uso de força excessiva por parte da polícia”, que, para eles, demonstra a incapacidade de diálogo e a opção pela agressão.
Da noite de segunda-feira até o fim da tarde da terça, Gabriel Figdan teve suas redes sociais inundadas de comentários como: “você merece apanhar e sangrar muito”e de que é “terrorista queimador de bandeira”. Também divulgaram seu telefone, e-mail e o endereço de casa, o que o levou a se abrigar na residência de um amigo até seu advogado buscar as medidas legais necessárias — ele anuncia que vai registrar um boletim de ocorrência nesta semana e que desativou o seu perfil no Facebook e Twitter. “Eu não consegui dormir desde ontem. Estou com medo e inseguro. A gente não sabe o que as pessoas são capazes de fazer, mas vamos provar que não tenho nenhum envolvimento com isso [com os atos de vandalismo]. Era para ter sido um ato histórico e pacífico, para dar espaço a nossa voz negra”, disse o ator.
Vários intelectuais e analistas criticam a ênfase em se falar nos distúrbios em meio a protestos, como em Curitiba, como capazes de deslegitimar as pautas defendidas e estigmatizar seus organizadores. Destacar apenas a depredação é a aposta tanto de Donald Trump nos EUA como de Jair Bolsonaro no Brasil. Na terça, o presidente de brasileiro chamou de “marginais” e “terroristas” os manifestantes antifascistas e disse que, no país, a questão racial é diferente da norte-americana.
As declarações de Bolsonaro foram dadas a apoiadores, que divulgaram vídeo nesta quarta. Nas imagens, Bolsonaro cita a manifestação na capital paranaense e afirma: “Não podemos deixar que o Brasil se transforme no que foi há pouco tempo o Chile. Não podemos admitir isso daí. Isso não é democracia nem liberdade de expressão. Isso no meu entender é terrorismo. E a gente espera que esse movimento não cresça porque o que a gente menos quer é entrar em confronto com quem quer que seja.” No mesmo sentido, o vice-presidente Hamilton Mourão escreveu em artigo no Estado de S. Paulo. “Baderneiros são caso de polícia, não de política”, generalizou.
Para a ativista curitibana Amanda Mendes, 21 anos, o desfecho em Curitiba, é triste. “Acabou encobrindo todo o nosso ideal” , lamenta a estudante de arquitetura e integrante do Movimento Feminista de Mulheres Negras, que frisa que a ideia do ato foi proporcionar um lugar de fala para diferentes experiências. “Teve fala de mulheres pretas, de um menino do Axé, de um menino negro trans. A gente tem que conhecer a nossa história. Curitiba é conhecida por ser uma cidade modelo e europeia, mas as pessoas têm que perceber que os negros escravizados trazidos ao Paraná são parte edificadora dessa cidade”. Ela cita como exemplo a participação de Enedina Marques, primeira engenheira negra do Brasil, formada pela Universidade Federal do Paraná, que participou de projetos como o do prédio da Biblioteca Pública do Paraná. “A cada 23 minutos um jovem negro é morto no Brasil. Era pra gente bater nessa tecla e sermos ouvidos. Queria que as pessoas vissem que o ato foi pelas vidas negras tiradas todos os dias”.
Curitibano, Gabriel passou os últimos dois anos no Rio de Janeiro realizando trabalhos como ator e participando de iniciativas sociais como Bando Cultural Favelados da Rocinha FAVELA, que realiza oficinas de arte na comunidade. Voltou a Curitiba no início deste ano. As situações racistas são recorrentes, diz o ator. “Segurança me persegue no mercado, pessoas me chamam de neguinho na rua. Já fui chamado de macaco em um jogo de futebol” enumera. “Por isso o antirracismo deveria ser pauta o tempo todo”.
Coordenador Estadual da Juventude do Cidadania 23, Eduardo de Souza Lelis reforça que houve orientação para o ato não seguir com passeata. “Achamos que poderia dar problema e não queríamos aglomerar por causa da pandemia. Depois disso fui embora. O que aconteceu depois vi de casa pelos vídeos nas redes sociais”.
O movimento se preocupou com as medidas sanitárias necessárias por conta da pandemia da covid-19, e solicitaram que todos estivessem de máscara, higienizassem as mãos e evitassem se aglomerar. Houve ainda arrecadação de roupas de frio para pessoas em situação de rua. “Recebemos bastante material e poderemos abençoar as pessoas de rua. Mas não vou poder nem sair entregar por causa das ameaças. Tenho outros amigos que vão fazer isso”.
Mark Zuckerberg, CEO e fundador do Facebook. Em vídeo, declarações do executivo em uma entrevista na semana passada.MARK LENNIHAN / AP
Centenas de funcionários do Facebook decidiram protestar contra a decisão da rede social de se manter à margem das mensagens incendiárias que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem publicando na plataforma nos últimos dias por diversos motivos, sendo o último deles os distúrbios raciais iniciados em Minneapolis. “O Facebook não deve ser o árbitro da verdade”, afirmou na semana passada o fundador e executivo-chefe da empresa, Mark Zuckerberg, depois da decisão do concorrente Twitter de incluir uma advertência sob uma postagem de Trump, recomendando aos usuários que procurassem informações confiáveis sobre o que estava sendo dito. Dias depois, Trump assinou uma ordem para limitar a imunidade das redes sociais pelos comentários de seus usuários.
A situação se agravou nos últimos dias, depois que o presidente tuitou uma mensagem com as palavras “quando começam os saques, começam os tiros”, em resposta aos protestos pela morte de George Floyd por um policial em Minneapolis. O Twitter ocultou essa mensagem e advertiu que ela violava as normas do serviço ao glorificar a violência. A resposta do Facebook ao mesmo conteúdo foi um post de Zuckerberg, publicado na sexta-feira, dizendo: “Acreditamos que as pessoas precisam saber se o Governo está planejando mobilizar a força”.
Tweet de Trump ocultado por Twitter
Essa atitude enfureceu um grupo de funcionários do Facebook que na segunda-feira anunciou sua recusa a trabalhar como forma de apoiar os manifestantes que saem às ruas em várias cidades dos EUA. Além disso, como parte do protesto virtual acrescentaram uma mensagem automatizada em seus perfis digitais e respostas automáticas de correio eletrônico dizendo que estavam fora do escritório, informou a agência Bloomberg. Cabe lembrar que a maioria dos funcionários do Facebook está trabalhando de suas casas devido à pandemia de covid-19.
I don't know what to do, but I know doing nothing is not acceptable. I'm a FB employee that completely disagrees with Mark's decision to do nothing about Trump's recent posts, which clearly incite violence. I'm not alone inside of FB. There isn't a neutral position on racism.
Dentro da empresa, vários funcionários fizeram circular apelos e ameaças de demissão, e vários outros mencionaram publicamente seu descontentamento através do Twitter e outras plataformas. Uma gerente de produto do Instagram, Katie Zhu, se disse “profundamente decepcionada e envergonhada pela forma como a companhia está se mostrando ao mundo…”. E lançou um apelo: “Se você se sente igual, junte-se a mim e vamos nos organizar. Ponha seu dinheiro onde seus tuítes estão.”
Em uma aparente tentativa de acalmar os ânimos, Zuckerberg anunciou em um post no domingo que o Facebook está comprometendo “10 milhões de dólares [52,2 milhões de reais] adicionais para grupos que trabalham pela justiça racial” e admitiu que a rede social “tem muito trabalho pela frente” para “assegurar que nossos sistemas não amplifiquem os prejuízos”.
A Bloomberg informa que Trump conversou por telefone com Zuckerberg na sexta-feira passada para discutir a situação. O CEO teria expressado ao mandatário sua decepção com o tom do presidente e lhe disse que estava pondo sua companhia em uma posição difícil. O Facebook havia anteriormente contatado a Casa Branca para solicitar a Trump que modificasse a publicação.
Como reagiu o Facebook a este mal-estar interno? Não é comum que seus funcionários falem publicamente da atividade interna, a menos que tenham autorização da equipe de comunicações. Mas se no passado a empresa tinha desestimulado vazamentos, agora mudou de enfoque, observa a Bloomberg.
A companhia disse que apoiaria os funcionários que participem da paralisação virtual e não exigirá que usem seu tempo livre remunerado para isso. Além disso, antecipou de quinta para esta terça a sua reunião geral semanal em que Zuckerberg responde a perguntas dos empregados de forma direta. “Estimulamos os funcionários a falarem abertamente quando não estiverem de acordo com a liderança”, disse um porta-voz da empresa. “Num momento em que enfrentamos decisões difíceis adicionais sobre o conteúdo, continuaremos buscando seu feedback honesto.”
MINISTRO CELDO DE MELLO, DO STF. FOTO: CARLOS MOURA/STF
O decano do STF seguiu Augusto Aras, que tinha se posicionado contra o confisco do aparelho do presidente
O ministro Celso de Mello, decano do STF, rejeitou nesta terça-feira 02 o pedido dos partidos de oposição para que os celulares do presidente Jair Bolsonaro e de seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) fossem apreendidos.
Na decisão, Mello lembrou que a PGR se posicionou de forma contrária às medidas propostas pelos partidos. Como cabe ao MP solicitar investigações para, posteriormente, oferecer uma acusação formal na Justiça, sem a intenção dos procuradores em prosseguir nas diligências, cabe à Justiça arquivar o pedido.
O ministro aproveitou para enviar um recado ao presidente, que afirmou que não entregaria seu aparelho para o STF. “Contestar decisões judiciais por meio de recursos ou de instrumentos processuais idôneos, sim; desrespeitá-las por ato de puro arbítrio ou de expedientes marginais, jamais, sob pena de frontal vulneração ao princípio fundamental que consagra, no plano constitucional, o dogma da separação de poderes”, diz trecho da decisão.
Para o decano do STF, Bolsonaro estaria sujeito a crime de responsabilidade em caso de recusa. “É tão grave a inexecução de decisão judicial por qualquer dos Poderes da República (ou por qualquer cidadão) que, tratando-se do Chefe de Estado, essa conduta presidencial configura crime de responsabilidade, segundo prescreve o art. 85, inciso VII, de nossa Carta Política, que define, como tal, o ato do Chefe do Poder Executivo da União que atentar contra “o cumprimento das leis e das decisões judiciais” (grifei)”.
Os pedidos tinham sido feitos pelo PDT, PSB e PV e também eram direcionados ao ex-ministro Sérgio Moro; ao ex-diretor-geral da PF, Maurício Valeixo; e à deputada Carla Zambelli. A intenção era realizar novas diligências como desdobramentos da investigação sobre a suposta interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal (PF).