Trump ameaça ‘fechar’ redes sociais após questionamento de seus tuítes

27 DE MAIO DE 2020

Sem provas, o presidente fez publicações afirmando que uma possível votação por correio no país levaria a uma eleição fraudulenta

O presidente americano, Donald Trump, ameaçou nesta quarta-feira 27 “regulamentar fortemente”, ou “fechar”, as redes sociais, depois que o Twitter classificou dois de seus tuítes como “enganosos” e os tratou como disseminadores de informações não verificadas.

“Os republicanos acham que as plataformas de mídia social silenciam completamente as vozes conservadoras. Vamos regulá-las fortemente, ou vamos fechá-las, em vez de permitir que algo assim aconteça”, tuitou o presidente.

O Twitter destacou dois tuítes de Trump publicados na terça-feira, nos quais o presidente dizia, sem provas, que o voto pelos correios levaria a uma eleição fraudulenta.

“Não há como o voto pelos correios ser outra coisa diferente de algo substancialmente fraudulento”, escreveu ele na época.

Abaixo das postagens, o Twitter postou um “link” que diz: “Obtenha informações sobre a votação pelos correios”, uma novidade para a rede social que por muito tempo resistiu aos apelos para censurar o presidente americano por postagens que desafiam a verdade.

Trump voltou ao ataque nesta quarta-feira: “Não podemos permitir que as cédulas por correio em larga escala ocorram em nosso país. Seria a liberdade de todos os enganos, falsificações e roubos de cédulas”.

“Quem trapacear mais, ganha. Do mesmo modo que as redes sociais. Limpe o que você fez, AGORA!”, disse o presidente.

Trump também acusou as redes sociais de interferirem nas últimas eleições: “Vimos o que tentaram fazer e fracassaram em 2016”.

“Não podemos permitir que volte a acontecer uma versão mais sofisticada disso”, acrescentou.

Há muito tempo, o presidente usa o Twitter como uma plataforma para disseminar insultos, teorias da conspiração e informações falsas para seus 80 milhões de seguidores.

Antes de ser eleito em 2016, ele construiu sua marca política apoiando a mentira de que Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, não havia nascido no país. Não seria, portanto, elegível para ser presidente.

E, recentemente, provocou mais uma tempestade ao espalhar o boato infundado de que o apresentador de televisão da MSNBC, Joe Scarborough, teria assassinado uma assistente.

A advertência do Twitter abaixo das mensagens de Trump sobre a votação por correio consiste em um link que, ao ser clicado pelos usuários, abre uma mensagem que destaca que as afirmações do presidente são “infundadas”, citando informações de vários meios de comunicação, incluindo CNN e Washington Post.

A mensagem diz: “Trump afirmou falsamente que as cédulas de voto por correio levariam a eleições fraudulentas”.

“Os verificadores, no entanto, afirmam que não há evidências de que as cédulas por correio estejam relacionada com fraude eleitoral”.

Trump havia citado em seus tuítes o governador da Califórnia, alegando de modo equivocado que todos os moradores do estado receberiam uma cédula, quando na realidade os envios se dirigem apenas aos eleitores registrados, segundo a explicação dos verificadores.

As mensagens violaram uma política ampliada recentemente pelo Twitter, destacou a empresa.

“Ao servir à conversa pública, nosso objetivo é facilitar a busca de informações confiáveis no Twitter e limitar a propagação de conteúdo potencialmente prejudicial e enganoso”, afirmou a empresa quando anunciou as mudanças.

A medida do Twitter acontece no momento em que Trump, em meio à forte desaceleração econômica nos Estados Unidos e 100.000 mortes provocadas pela pandemia de coronavírus, divulgava a teoria da conspiração sobre Scarborough.

Os boatos sem evidências divulgados pelo presidente afirmam que o apresentador de TV matou uma mulher com a qual teve um relacionamento em 2001, quando ele era um congressista republicano e ela integrava sua equipe de assessores.

Reprodução:

Bolsonaristas acusam STF de censura por inquérito das fake news

27 DE MAIO DE 2020

Parlamentares alvo de operação de busca e apreensão e apoiadores de Bolsonaro criticam ação autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes

Os deputados bolsonaristas alvo do inquérito das Fake News, que apura ofensas, ataques e ameaças contra ministros do STF, condenaram a ação de busca e apreensão, realizada nesta quarta-feira 27, a pedido do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, relator do caso.

Entre parlamentares, estão sendo investigados os deputados federais Bia Kicis, Carla Zambelli, Daniel Silveira, Filipe Barros, Cabo Junior do Amaral e Luiz Philippe de Orleans e Bragança. Os deputados estaduais de São Paulo Douglas Garcia (PSL) e Gil Diniz (PSL) também integram a lista.

Além deles, são alvo da investigação o blogueiro Allan Santos, do canal Terça Livre, a militante Sara Winter, e o empresário Luciano Hang, proprietário da Havan e apoiador de Jair Bolsonaro.

Nas redes sociais, parte dos acusados se defendeu acusando o STF de tentar “criminalizar a a liberdade de expressão e a atividade parlamentar”, caso do deputado estadual Douglas Garcia.

Os filhos do presidente Jair Bolsonaro também condenaram a ação. O deputado federal Eduardo Bolsonaro associou o inquérito a uma “ordem ditatorial”. Já o vereador afirmou que a medida quer “incentivar rachaduras diante de inquérito inconstitucional, político e ideológico sobre o pretexto de uma palavra politicamente correta”.


Parlamentares alvo de operação de busca e apreensão e apoiadores de Bolsonaro criticam ação autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes

Os deputados bolsonaristas alvo do inquérito das Fake News, que apura ofensas, ataques e ameaças contra ministros do STF, condenaram a ação de busca e apreensão, realizada nesta quarta-feira 27, a pedido do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, relator do caso.

Entre parlamentares, estão sendo investigados os deputados federais Bia Kicis, Carla Zambelli, Daniel Silveira, Filipe Barros, Cabo Junior do Amaral e Luiz Philippe de Orleans e Bragança. Os deputados estaduais de São Paulo Douglas Garcia (PSL) e Gil Diniz (PSL) também integram a lista.

Além deles, são alvo da investigação o blogueiro Allan Santos, do canal Terça Livre, a militante Sara Winter, e o empresário Luciano Hang, proprietário da Havan e apoiador de Jair Bolsonaro.➤ Leia também:Carla Zambelli, Bia Kicis e outros deputados bolsonaristas são alvos da PF sobre fake newsLuciano Hang, Roberto Jefferson e aliados de Bolsonaro são alvo da PF contra fake news

Nas redes sociais, parte dos acusados se defendeu acusando o STF de tentar “criminalizar a a liberdade de expressão e a atividade parlamentar”, caso do deputado estadual Douglas Garcia.

Os filhos do presidente Jair Bolsonaro também condenaram a ação. O deputado federal Eduardo Bolsonaro associou o inquérito a uma “ordem ditatorial”. Já o vereador afirmou que a medida quer “incentivar rachaduras diante de inquérito inconstitucional, político e ideológico sobre o pretexto de uma palavra politicamente correta”.

Veja as manifestações:

Reprodução:

https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaristas-acusam-stf-de-censura-por-inquerito-das-fake-news/

Augusto Aras e André Mendonça já defenderam legalidade do inquérito das ‘fake news’

Procurador-geral pediu suspensão do caso nesta quarta, e ministro da Justiça disse que cidadão pode criticar instituições. PF cumpriu mandados em ação que envolveu aliados de Bolsonaro.

Por Rosanne D’Agostino, G1 — Brasília – 27/05/2020 17h48

O procurador-geral da República, Augusto Aras, e o ministro da Justiça, André Luiz Mendonça, já apresentaram pareceres favoráveis à legalidade do inquérito que investiga ameaças a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a disseminação de conteúdo falso na internet, as chamadas “fake news”.

Mais cedo, nesta quarta, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão no inquérito. Aliados do presidente Jair Bolsonaro foram alvos da operação, entre os quais o presidente do PTB, Roberto Jefferson, e o empresário Luciano Hang.

Depois da operação, Augusto Aras pediu a suspensão do inquérito, e André Mendonça divulgou uma nota para dizer que o cidadão tem o direito de criticar “representantes e instituições”.

Para o ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito, as provas colhidas no inquérito apontam para “real possibilidade” de associação criminosa. Todos os alvos da operação negam irregularidade.

“As provas colhidas e os laudos técnicos apresentados no inquérito apontaram para a existência de uma associação criminosa dedicada à disseminação de notícias falsas, ataques ofensivos a diversas pessoas, às autoridades e às Instituições, dentre elas o Supremo Tribunal Federal, com flagrante conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática”, escreveu o ministro.

Ainda de acordo com Moraes, a atuação dos integrantes do gabinete do ódio, que “atinge um público diário de milhões de pessoas”, é um risco para a independência dos poderes e para o Estado de Direito.

“O objeto deste inquérito, […] a investigação de notícias fraudulentas (fake news), falsas comunicações de crimes, denunciações caluniosas, ameaças e demais infrações […] que atingem a honorabilidade e a segurança do Supremo Tribunal Federal, de seus membros; bem como de seus familiares, quando houver relação com a dignidade dos Ministros, inclusive o vazamento de informações e documentos sigilosos, com o intuito de atribuir e/ou insinuar a prática de atos ilícitos por membros da Suprema Corte, por parte daqueles que tem o dever legal de preservar o sigilo; e a verificação da existência de esquemas de financiamento e divulgação em massa nas redes sociais, com o intuito de lesar ou expor a perigo de lesão a independência do Poder Judiciário e ao Estado de Direito”, acrescentou.

Augusto Aras

No novo posicionamento, Aras disse que a Procuradoria-Geral da República foi “surpreendida” com as ações realizadas hoje “sem a participação, supervisão ou anuência prévia do órgão de persecução penal” e disse que isso “reforça a necessidade de se conferir segurança jurídica” ao inquérito, “com a preservação das prerrogativas institucionais do Ministério Público de garantias fundamentais, evitando-se diligências desnecessárias, que possam eventualmente trazer constrangimentos desproporcionais”.

Em outubro do ano passado, Aras afirmou que o inquérito tratava de “atuação legítima do Supremo para apuração de fatos supostamente criminosos aptos a lesionar o funcionamento da Corte”.

O parecer foi apresentado em uma ação da Rede, a mesma em que agora o PGR pede que o inquérito seja suspenso. Aras considerou que O procurador que o inquérito estava dentro da legalidade porque é previsto no regimento, e a apuração não afronta a Constituição. Mas destacou que o MP tinha que fazer parte, visando “os direitos e garantias fundamentais de investigados”. Aras, no entanto, não apontou a necessidade de anular nenhum ato concreto praticado no âmbito da apuração por ausência de participação do MP.

“O inquérito previsto no art. 43 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, portanto, encontra amparo na separação de Poderes. Tem o seu alcance limitado à defesa do funcionamento autônomo e independente da mais alta Corte do país. Todavia, a possibilidade de instauração atípica de inquérito judicial pelo Supremo Tribunal Federal, na forma do art. 43 do seu Regimento Interno, com base na garantia de exercício independente das funções do Poder Judiciário, não significa que o procedimento preliminar possa ser conduzido em desconformidade com o modelo penal acusatório”, disse Augusto Aras no documento.

André Mendonça

Já André Mendonça, defendeu o inquérito quando ainda era advogado-geral da União. Em abril do ano passado, em ação da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), defendeu que o regimento do STF prevê a hipótese de abertura de inquérito por ordem da Corte e não usurpava competência do Ministério Público. “A interpretação regimental é matéria sujeita ao juízo dos próprios integrantes do tribunal.”

Em nota divulgada hoje, disse que agiu por “dever de ofício” ao defender a constitucionalidade do inquérito. “Em nenhum momento, me manifestei quanto ao mérito da investigação e jamais tive acesso ao seu conteúdo”, afirmou.

O ministro, que substituiu o ex-juiz Sergio Moro na pasta, afirmou hoje que “intimidar ou tentar cercear esses direitos é um atentado à própria democracia” e que todas as investigações “sejam submetidas às regras do Estado Democrático de Direito, sem que sejam violados pilares fundamentais e irrenunciáveis da democracia”.

Disse também que ao povo “é garantido o inalienável direito de criticar seus representantes e instituições de quaisquer dos Poderes”. “Além disso, aos parlamentares é garantida a ampla imunidade por suas opiniões, palavras e votos”, diz.

Reprodução: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/27/aras-e-andre-mendonca-ja-defenderam-legalidade-de-inquerito-que-apura-ameacas-ao-stf.ghtml

OAB e Abraji firmam convênio e lançam cartilha para segurança de jornalistas

27 de maio de 2020, 19h12 – Revista Consultor Jurídico

A OAB Nacional e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) firmaram nesta quarta-feira (27/5) convênio para a promoção da segurança dos jornalistas e o fortalecimento da liberdade de imprensa.

A cartilha traz orientações jurídicas básicas para jornalistas vítimas de assédio ou ameaça no ambiente digital. A sobre medidas legais para a proteção de jornalistas contra ameaças online detalha as características de um abuso virtual, além do modo de denunciá-lo às autoridades.

O presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, afirmou que a imprensa livre é pilar da democracia. “A defesa da democracia exige vigilância e coragem, exige instituições fortes. Omissão, tibieza e fraqueza são fatores que levam a processos históricos como foi o da ascensão do nazismo. Quando a liberdade não é observadora da força da democracia institucional, leva à desordem, ao caos e à vitória dos autoritários”, afirmou.

O coordenador do Observatório de Liberdade de Imprensa da OAB Nacional, Pierpaolo Bottini, ressaltou a importância da cartilha para jornalistas que sofreram agressões e para identificar quem se esconde atrás de um teclado para realizar essas atrocidades. “A cartilha que advém do convênio é um passo a passo para os jornalistas agredidos, listando as autoridades que devem procurar nas delegacias, no Ministério Público, no Judiciário. E vale não somente para os profissionais de grandes veículos, mas sobretudo para os do interior do país, onde a intimidação é, muitas vezes, maior”, afirmou Bottini.

O presidente da Abraji, Marcelo Träsel, lembrou os crescentes ataques que os profissionais têm sido vítimas no país. “Os recentes ataques evidenciam a degradação da civilidade e do espírito democrático no país. A imprensa é sempre um dos alvos dos movimentos autoritários, porque é impossível existir uma democracia sem uma imprensa livre, e ela nunca esteve tão ameaçada no Brasil desde a redemocratização”, afirmou.

“Nunca, de lá para cá, houve tanto cerceamento à atividade jornalística. Devemos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para evitar que jornalistas voltem a ser alvos de perseguição sistemática como era no regime militar. O assédio na internet é inaceitável numa democracia, assim como o discurso injurioso e estigmatizante do presidente da República contra os profissionais da imprensa”, completou Träsel.

Clique aqui para ler a cartilha

Reprodução: https://www.conjur.com.br/2020-mai-27/oab-abraji-firmam-convenio-lancam-cartilha-seguranca

Aras pede a Fachin para suspender tramitação do inquérito das fake news

Por Andreia Sadi e Marcelo Parreira – 27/05/2020 14h32  Atualizado há 3 horas

O procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu ao ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), a suspensão do inquérito da fake news. O pedido foi feito nesta quarta-feira (27), após a divulgação da operação da Polícia Federal que mira um suposto esquema criminoso que divulga fake news.

Aras disse que a Procuradoria-Geral da República foi “surpreendida” com as ações realizadas hoje “sem a participação, supervisão ou anuência prévia do órgão de persecução penal” e disse que isso “reforça a necessidade de se conferir segurança jurídica” ao inquérito, “com a preservação das prerrogativas institucionais do Ministério Público de garantias fundamentais, evitando-se diligências desnecessárias, que possam eventualmente trazer constrangimentos desproporcionais”.

Segundo o blog apurou, Aras fez o pedido em uma ação do partido Rede que questiona o inquérito. O ministro Fachin é o relator dessa ação. No pedido, o procurador cita uma manifestação feita por ele mesmo no inquérito, no último dia 19, ao ser informado sobre a possibilidade das ações autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes e realizadas hoje. E argumenta não ver crime nos posts em redes sociais dos alvos da operação, considerando “desproporcionais” as medidas de bloqueio das contas em redes sociais.

“A leitura dessas manifestações demonstra, a despeito de seu conteúdo incisivo em alguns casos, serem inconfundíveis com a prática de calúnias, injúrias ou difamações contra os membros do STF. Em realidade, representam a divulgação de opiniões e visões de mundo, protegidas pela liberdade de expressão”, diz Aras.

“Na medida em que as manifestações feitas em redes sociais atribuídas aos investigados inserem-se na categoria de crítica legítima – conquanto dura –, ao ver deste órgão ministerial são desproporcionais as medidas de bloqueio das contas vinculadas aos investigados nas redes sociais.”

Allan dos Santos (à esquerda), blogueiro do site bolsonarista Terça Livre, durante operação da Polícia Federal contra fake news — Foto: GABRIELA BILÓ/ESTADÃO CONTEÚDO

Allan dos Santos (à esquerda), blogueiro do site bolsonarista Terça Livre, durante operação da Polícia Federal contra fake news — Foto: GABRIELA BILÓ/ESTADÃO CONTEÚDO

Inquérito das fake news

Em março de 2019, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, abriu inquérito criminal para investigar “notícias fraudulentas”, ofensas e ameaças que “atingem a honorabilidade e a segurança” da Corte, os ministros e seus familiares. O ministro Alexandre de Moraes foi nomeado relator do caso.

Em meio a questionamentos sobre a abertura do inquérito, com críticas que partiram inclusive da então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e de membros do próprio STF, as investigações já duram mais de um ano.

Na ocasião, em outubro de 2019, Augusto Aras disse não ver ilegalidade no caso e defendeu que a procuradoria deve participar das investigações.

Nesta quarta-feira (27), a Polícia Federal (PF) cumpriu 29 mandados de busca e apreensão como parte do inquérito. Entre os alvos, há nomes ligados ao presidente Jair Bolsonaro, incluindo políticos, empresários e blogueiros.

Reprodução: https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/2020/05/27/aras-pede-a-fachin-para-suspender-tramitacao-do-inquerito-das-fakenews.ghtml

“Liberdade de imprensa não é construída por robôs”, diz Alexandre de Moraes

Alexandre de Moraes, ministro do Supremo - Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF/Agência Brasil
Alexandre de Moraes, ministro do SupremoImagem: Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF/Agência Brasil

Do UOL, em São Paulo – 27/05/2020 11h54

O ministro do STF (Alexandre de Moraes) defendeu hoje a liberdade de manifestação, mas disse que as pessoas devem arcar com as consequências de seus atos.

Ele disse ainda que a liberdade de imprensa não é construída por robôs. A fala ocorre no mesmo dia em que a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão relacionados ao inquérito das fake news, conduzido pelo ministro no Supremo. Entre os alvos estão pessoas próximas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

“Não se pode censurar, restringir a liberdade de manifestação, de imprensa. Agora as pessoas devem arcar com as consequências de seus atos. Não é possível que novas formas de mídia se organizem de forma criminosa com finalidades de propagação de discursos racistas, discriminatórios, de ódio, contra a democracia e as instituições democráticas”, disse o ministro em um seminário da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Moraes ainda falou sobre as ameaças e agressões sofridas por jornalistas, ações que no seu entender afetam a liberdade de imprensa e facilitam o acesso à população às fake news. “Senós aceitarmos isso como normal, essas ameaças virtuais e presenciais, nós estamos abrindo mão da liberdade de imprensa”, avaliou.

Barroso: ‘Ilusão impedir fake news por decisão judicial’

Também no evento da Abraji, o ministro Luís Roberto Barroso, membro do STF e presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), diz que é uma ilusão que se possa impedir as fake news por decisão judicial.

“Você não consegue. Primeiro porque não é fácil caracterizar o que é fake news. Segundo o ‘timing’ [momento] porque não é fácil o judiciário chegar a tempo. E terceiro porque muitos computadores estão fora [do país] e não temos jurisdições extraterritoriais.”

Barroso pontua que as redes sociais democratizaram o acesso à informação, com pluralidade. “Mas, infelizmente, em muitos espaços se degenerou para se transformar em veículos do que chamamos de fake news, que são as campanhas de desinformação, ódio.”

Para combater a desinformação, o presidente do TSE diz que há três meios: as próprias plataformas das redes sociais, a imprensa e a sociedade, a qual “tem que mudar um pouco sua postura em relação a isso [fake news]”.

‘Terroristas digitais’, diz presidente da OAB

Presidente da OAB, Felipe Santa Cruz exalta a operação de hoje da PF que investiga “terroristas digitais”. “[Eles] conhecerem a face dura do poder Judiciário e da lei. Hoje é um dia marcante.” Para ele, a ação desta quarta é uma resposta e uma defesa à democracia, o que exige “vigilância, coragem, instituições fortes”.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, concorda que a “desinformação como método” é um dos maiores problemas atuais porque ela promove “a ignorância, a incivilidade”.

“Existem aqueles que se dizem jornalistas e que se usam de blogs para ocupar espaço na internet”, comenta Aras. “[Eles] colocam verdadeiras aleivosias que incitam a violência e merecem todo o nosso reproche”.

Barroso tem visão semelhante e diz que “terroristas morais proliferam o ódio” em vez de participarem do debate público, “onde deveria prevalecer a disputa pelo bom argumento”. “Precisamos de debate sem desqualificar o outro.”

E, para o debate, o presidente do TSE ressalta a importância da imprensa, “essencial para a democracia”. “A democracia pressupõe a livre circulação de dados”.

Reprodução: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/27/liberdade-de-imprensa-nao-e-construida-por-robos-diz-alexandre-de-moraes.htm

PF faz 29 buscas no inquérito das fake news e mira ‘gabinete do ódio’; operação pega Jefferson, Hang e oito deputados

Ministro do Supremo expediu ordens que estão sendo cumpridas no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina; Alexandre de Moraes também determinou que a corporação ouça seis deputados federais e dois estaduais.

Pepita Ortega e Fausto Macedo – 27 de maio de 2020 | 07h17

A Polícia Federal cumpre na manhã desta quarta, 27, ordens judiciais expedidas pelo pelo ministro Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das fake news, mirando nomes ligados ao ‘gabinete do ódio’ e aliados do presidente Jair Bolsonaro. Agentes realizam 29 buscas no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.

Entre os alvos de buscas estão:

Allan dos Santos – blogueiro do site bolsonarista Terça Livre

Sara Winter – ativista bolsonarista

Winston Rodrigues Lima – capitão da reserva e youtuber

Paulo Gonçalves Bezerra

Reynaldo Bianchi Junior

Roberto Jefferson Monteiro Francisco – presidente do PTB

Luciano Hang – empresário bolsonarista dono das lojas Havan

Bernardo Pires Kuster

Marcelo Stachin

Eduardo Fabres Portella

Edgard Gomes Corona

Edson Pires Salomão

Enzo Leonardo Suzi Momenti

Marcos Dominguez Bellizia

Otavio Oscar Fakhoury

Rafael Moreno

Rodrigo Barbosa Ribeiro

Alexandre ainda determinou que seis deputados federais e dois estaduais sejam ouvidos em até dez dias no âmbito da investigação. São eles:

Beatriz Kicis (PSL- DF)

Carla Zambelli (PSL-SP)

Daniel Lúcio da Silveira (PSL-RJ)

Filipe Barros Baptista de Toledo Ribeiro (PSL-PR)

Geraldo Junio do Amaral (PSL-MG)

Luiz Phillipe Orleans e Bragança (PSL-SP)

Douglas Garcia Bispo dos Santos (deputado estadual em São Paulo – PSL)

Gil Diniz (deputado estadual em São Paulo – PSL)

Garcia disse à reportagem que os agentes da PF estiveram em seu gabinete na Assembleia Legislativa de São Paulo e apreenderam computadores. O deputado diz que as buscas são ‘lamentáveis’ e alega imunidade parlamentar. A ativista Sara Winter confirmou ser alvo da operação por meio do Twitter e disse que seu celular e seu computador foram apreendidos. Na publicação, compartilhou mandado de busca com a indicação de que ela deverá ser ouvida em até 10 dias pela PF e chamou Alexandre de Moraes de ‘covarde’.

Documento O MANDADO DE BUSCA DE SARA WINTER PDF

O inquérito 4.781 foi aberto no dia 14 de março de 2019, por portaria assinada pelo presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli, e trata de ameaças, ofensas e fake news disseminadas contra integrantes da Corte e seus familiares. As apurações já atingiram ao menos 12 pessoas, entre deputados federais, estaduais e empresários bolsonaristas.

Como os repórteres Rafael Moraes Moura e Felipe Frazão mostraram, doze perfis com prática sistemática de ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) nas redes sociais já foram mapeados pelo inquérito. O Estado também revelou que o inquérito do Supremo já identificou empresários bolsonaristas que estariam financiando um “bombardeio” virtual contra ministros do tribunal. A investigação corre sob sigilo e deve ser concluída ainda neste semestre, quando seguirá para o Ministério Público.

No âmbito de tal inquérito, Alexandre cobrou nesta terça, 27, explicações do ministro da Educação, Abraham Weintraub sobre a declaração feita na reunião de 22 de abril, quando Weintraub afirmou que, por ele, “botava esses vagabundos todos na cadeia”, “começando no STF”. O titular do Ministério da Educação terá agora cinco dias para prestar depoimento à Polícia Federal.

Antes, a decisão mais recente do ministro no âmbito da investigação foi no sentido de blindar os delegados do inquérito das fake news, impedindo que eles sejam trocados em meio à mudança de comando da Polícia Federal. Os mesmos delegados estão conduzindo as investigações dos atos antidemocráticos que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do próprio STF. O presidente Jair Bolsonaro participou da manifestação em Brasília, quando atacou a “velha política” e avisou que não quer “negociar nada”.

O inquérito

Desde quando foi aberto, o inquérito das fake news sofreu forte oposição do Ministério Público Federal. A então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, se posicionou pelo arquivamento do caso de imediato. Senadores reclamaram e puseram essa investigação na lista de justificativas para abrir uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Lava Toga, que ainda não saiu do papel.

Foram protocolados pedidos no Supremo para que a legalidade do inquérito seja discutida em julgamento do plenário. Os autores foram o partido Rede Sustentabilidade e a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR).

Com a mudança do titular da Procuradoria-Geral da República (PGR), em setembro, foi alterada também a postura da instituição em relação ao inquérito. O procurador-geral Augusto Aras disse que Toffoli, ao determinar a abertura da apuração, “exerceu regularmente as atribuições que lhe foram concedidas” pelo Regimento Interno do Supremo. Aras defendeu, no entanto, a participação do MPF em todas as fases da investigação, o que vem sendo negado pelo relator.

Foi no âmbito desse inquérito que o ministro Alexandre de Moraes censurou reportagens publicadas na revista digital Crusoé e no site O Antagonista. Moraes, no entanto, acabou derrubando a própria decisão ao receber informações de que as reportagens eram fundamentadas em um documento que “realmente existe

Reprodução: https://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/alexandre-poe-pf-nas-ruas-para-fazer-29-buscas-no-inquerito-das-fake-news/

Jefferson, Hang e bolsonaristas são alvos de ação contra fake news

Roberto Jefferson aparece empunhando um fuzil contra "comunistas" - Twitter/Divulgação

Roberto Jefferson aparece empunhando um fuzil contra “comunistas”Imagem: Twitter/Divulgação

Do UOL, em São Paulo e em Brasília – 27/05/2020 07h21 Atualizada em 27/05/2020 09h07

A Polícia Federal cumpre na manhã de hoje mandados de busca e apreensão em cinco estados e no Distrito Federal relacionados ao inquérito das fake news que é conduzido pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Ao todo, foram expedidos 29 mandados de busca e apreensão pelo ministro Alexandre de Moraes, que conduz o inquérito.

Entre os alvos estão pessoas próximas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), como:

  • o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB)
  • o deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP)
  • a ativista Sara Winter
  • o empresário Luciano Hang
  • o blogueiro Allan dos Santos

As ordens judiciais estão sendo cumpridas no Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.

O inquérito das fake news no Supremo foi aberto em março do ano passado para apurar “a existência de notícias fraudulentas (fake news), denunciações caluniosas, ameaças e infrações revestidas de animus caluniandi, difamandi ou injuriandi, que atingem a honorabilidade e a segurança do Supremo Tribunal Federal, de seus membros e familiares”.

A assessoria do PTB confirmou que agentes federais estiveram na casa de Jefferson e que já deixaram o local.

Garcia, parlamentar de São Paulo, disse que a operação visa “calar os conservadores”.

Nas redes sociais, Winter disse que a PF esteve em sua casa às 6h de hoje. “Levaram meu celular e notebook. Estou praticamente incomunicável”. Ela ofendeu o ministro do Supremo e disse: “você não vai me calar”.

Reprodução: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/05/27/pf-cumpre-mandados-em-5-estados-e-no-df-de-inquerito-sobre-fake-news.htm

Operação da PF mira Roberto Jefferson, blogueiro, deputado de SP e empresário Luciano Hang em inquérito contra fake news

Os quatro alvos são aliados e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Ao todo, 29 ordens judiciais estão sendo cumpridas no Distrito Federal, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Mato Grosso, no Paraná e em Santa Catarina

André de Souza, Rayanderson Guerra, Thais Arbex e Cleide Carvalho27/05/2020 – 07:23 / Atualizado em 27/05/2020 – 10:03

Prédio do STF, em Brasília Foto: Divulgação / STF

RIO – A Polícia Federal (PF) cumpre, na manhã desta quarta-feira, 29 mandados de busca e apreensão no inquérito do Supremo Tribunal Federal (STF) que apura fake news e ataques contra ministros da Corte. Entre os alvos estão o ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), o deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP), o blogueiro Alllan dos Santos, o empresário Luciano Hang, a ativista Sara Winter e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. 

Estão sendo cumpridos 29 mandados de busca e apreensão no âmbito do procedimento, presidido pelo ministro Alexandre de Moraes. As ordens judiciais estão sendo cumpridas no Distrito Federal, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Mato Grosso, no Paraná e em Santa Catarina.

Carlos Bolsonaroinquérito que apura fake news é ‘inconstitucional, político e ideológico’

A PF foi até a casa de Roberto Jefferson e no gabinete do deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP), na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Nas redes sociais, Garcia publicou um vídeo em que diz sofrer “perseguição no inquérito inconstitucional estabelecido pela ditatoga com o intuito de criminalizar a liberdade de expressão e a atividade parlamentar”.

Polícia Federal no meu gabinete: a perseguição do inquérito inconstitucional 4.781 estabelecido pela ditatoga com o intuito de criminalizar a liberdade de expressão e a atividade parlamentar“. pic.twitter.com/IwP1jkFBow— Douglas Garcia (@DouglasGarcia) May 27, 2020

O deputado, líder do Movimento Conservador, é alvo pela segunda vez. Em dezembro do ano passado, foram apreendidos notebook e celular na casa de Edson Salomão, chefe de gabinete de Garcia, também depois de mandato expedido pelo ministro Alexandre de Moraes

A suspeita é que mensagens de ódio e fake news tenham saído de computadores instalados no gabinete do deputado, na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Os investigadores apuram se Garcia é um dos braços do chamado “gabinete do ódio”, que funcionaria no Palácio do Planalto. Um dos IPs  investigados eram da Prodesp, a companhia de dados do governo paulista. A suspeita é que mensagens com notícias falsas tenham partido do gabinete do deputado.

O blog “Terça Livre”, de Allan dos Santos, divulgou uma nota dizendo que a sede do site foi alvo da PF nesta manhã e apreendeu celulares e computadores do veículo e do blogueiro.

Os agentes da PF também fora até a casa da ativista Sara Wiinter. Ela é apoiadora do presidente Jair Bolsonaro e criadora do grupo “300 pelo Brasil”, que chegou a montar barracas na Esplanada e divulgar manifestos sugerindo o uso de táticas de guerrilha para “exterminar a esquerda” e “tomar o poder para o povo”. O nome é uma referência aos 300 de Esparta, filme baseado numa história em quadrinhos que conta a saga de três centenas de guerreiros espartanos que lutaram até à morte para defender seu território.

“A PF acaba de sair da minha casa. Bateram aqui às 6h da manhã a mando do Alexandre de Moraes. Levaram meu celular e notebook. Estou praticamente incomunicável! Moraes, seu covarde, você não vai me calar!”, escreveu Sara nas redes sociais.

Também são alvo da investigação Winston Rodriges Lima, conhecido como Comandante Winston, militar reformado da Marinha, candidato a deputado distrital em 2018 e coordenador de manifestações pró-Bolsonaro; Marcelo Stachin, militante bolsonarista que participou de manifestação de apoio ao presidente em Brasília e Bernardo Kuster, youtuber com 862 mil inscritos que costuma elogiar Bolsonaro e atacar adversários e a imprensa.

Aberto em março do ano passado por ordem do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, o inquérito é tocado por Moraes. Já houve ordens de busca e apreensão contra supostos autores de fake news e de ofensas a autoridades públicas. Estão na mira do inquérito aberto no ano passado deputados bolsonaristas e outros aliados do presidente.

O inquérito foi aberto por meio de portaria, e não a pedido da Procuradoria Geral da República (PGR), como é a praxe. Apesar de incomum, a situação está prevista no Regimento Interno do Supremo. A relatoria do inquérito ficou por conta do ministro Alexandre de Moraes, por designação de Toffoli.

Deputados bolsonaristas investigados

Seis deputados federais bolsonaristas são investigados no STF no inquérito que apura fake news e ameaças contra ministros da Corte. São eles: Bia Kicis, Carla Zambelli, Daniel Silveira, Filipe Barros, Cabo Junio Amaral e Luiz Philippe de Orléans e Bragança. Todos os seis ainda estão filiados ao PSL.

Também são investigados dois deputados estaduais de São Paulo, Douglas Garcia (PSL) e Gil Diniz (PSL). Moraes não determinou busca e apreensão contra eles. No caso de Garcia, porém, a PF está em seu gabinete porque dois assessores são alvos dos mandados.

Diniz foi funcionário do gabinete do Eduardo Bolsonaro e é o atual líder do PSL na Assembleia de SP. Antes, foi funcionário dos Correios e ganhou notoriedade com o perfil “Carteiro Reaça”  Teve apoio do presidente Jair Bolsonaro e de Eduardo Bolsonaro na campanha e foi eleito com 214.037 votos.

Reprodução: https://oglobo.globo.com/brasil/operacao-da-pf-mira-roberto-jefferson-blogueiro-deputado-de-sp-empresario-luciano-hang-em-inquerito-contra-fake-news-24447899

“Eu fui um ‘bot”: as confissões de um agente dedicado a mentir no Twitter

Ex-funcionário de uma agência explica como funciona a sofisticada máquina das armadilhas na rede social

JORDI PÉREZ COLOMÉ

21 DE MAIO DE 2020

“Coordenei uma equipe de trolls formada por 10 pessoas. Mas há equipes maiores no setor”, diz um community manager que durante boa parte da última década atuou em uma agência internacional que vendia serviços de amplificação artificial de mensagens no Twitter. “Trabalhei em projetos em cinco países, entre eles a Espanha. Existe uma demanda para contratos desse tipo que não é anunciada nas Páginas Amarelas”, diz.

Com esta experiência, ele agora quer revelar como funciona esse negócio obscuro capaz de influenciar a opinião pública. Há algumas semanas, começou a contar detalhes em uma conta do Twitter chamada ironicamente @thebotruso (“o robô russo”). O EL PAÍS, que comprovou seu papel na agência em questão, trocou dúzias de mensagens com @thebotruso sobre como são preparadas a executadas atualmente as célebres campanhas de bots e trolls a serviço de empresas, partidos políticos ou clubes esportivos. O ex-funcionário mantém o anonimato porque um contrato de confidencialidade o impede de revelar o conteúdo específico e os clientes de seu antigo trabalho.

O Twitter não é uma réplica da vida real. Mas os debates ou opiniões que dominam a rede frequentemente vão parar na mídia. Ou mesmo na tribuna dos Parlamentos. “As ruas estão ficando cheias de bots”, disse com ironia Santiago Abascal, líder do partido Vox, ao primeiro-ministro espanhol, o socialista Pedro Sánchez, durante um debate nesta segunda-feira, referindo-se a recentes manifestações da direita no país. Uma parte das contas que discutem no Twitter é falsa. O problema é saber quantas ou, mais difícil, quais são, e que influência exercem. “Eu gostava de chamar a atenção de jornalistas afins. Aumenta muito nosso ego que um jornalista pegue os conteúdos de sua conta troll como fonte dos seus artigos, além de ajudar a ganhar visibilidade”, conta @thebotruso.

1. Nem todos são ‘bots’

Por definição se usa bot como sinônimo de conta falsa no Twitter. Mas um bot é uma conta automatizada, não necessariamente falsa. Anos atrás, eles eram os principais encarregados de amplificar mensagens: faziam milhares de retuítes ou likes, ou serviam para engrossar contas de seguidores. Continuam tendo essa finalidade, mas, graças a ações do Twitter e à maior sofisticação dos usuários atuais, ficou mais fácil descobri-los e eliminá-los.

A agência onde @thebotruso trabalhava tem um software para programar bots. Ele dá ordens para fazer tantos retuítes de tais contas ou disparar tuítes previamente redigidos em horários determinados. É barato, mas pouco refinado. “Continua-se trabalhando para amplificar o conteúdo, mas é preciso ser cuidadoso, porque pode acarretar um problema de reputação ao cliente”, diz.

Para evitá-lo, há vários recursos que permitem humanizar ou desvincular esses bots de uma campanha: “Os bots não irão retuitar qualquer coisa que se mexa. Se forem feitas ações com um troll específico, por exemplo, isso gera um padrão, com o que um analista de dados da concorrência seria capaz de levantar a lebre”, diz.

Os bots tampouco seguirão a conta do cliente que os paga, como precaução para uma eventual descoberta. “Se pegarmos como exemplo a causa independentista [da Catalunha], os bots seguirão diferentes partidos, políticos e associações, mas não o cliente final”, explica. Também se observa se há usuários reais interagindo com algum bot. Nesse caso, um funcionário entrará no circuito para responder.

2. A chave são dois tipos de trolls

A definição habitual de troll está associada a um usuário vândalo ou impertinente. Na agência, essas eram suas contas-estrelas. Cada empregado podia administrar 30 delas, cada uma com seu comportamento humano. Os trolls se dividiam em alfa e beta.

As contas alfa difundem a mensagem. Começavam com uma estratégia de “me siga e eu te sigo”, para ganhar peso. Seus tuítes iniciais eram inflados pelos bots e depois interagiam com contas importantes para chamar a atenção. Na Espanha, ficou famosa a conta de Miguel Lacambra, que conseguiu 20.000 seguidores em poucas semanas com uma estratégia similar.

Os trolls beta são os guerrilheiros. Dedicam-se a amansar a crítica. São contas que respondem a tuítes de famosos com insultos ou ameaças. “Os afetados pelos ataques dos beta veem as respostas a seus tuítes e muitas vezes se contêm um pouco na hora de tuitar, dependendo do tema. Sentem-se incômodos e passam a querer ter um perfil mais discreto. O sistema é eficaz. Por isso, continuam sendo contratados e aperfeiçoados. E nós, usuários, continuamos caindo”, diz.

3. O objetivo: enganar o Twitter

Uma parte dos esforços é dedicada a evitar a detecção das armadilhas e aumentar a probabilidade de sucesso: “Os trolls não se seguirão entre si e se limitará a interação entre eles para que liderem vários grupos de diálogo e porque uma relação habitual entre dois ou mais trolls poria a operação em risco”, diz @thebotruso. As contas são mapeadas com uma ferramenta habitual entre pesquisadores, chamada Gephi, para ver se a relação entre eles é destacável: “Esses gephis seriam capazes de revelar a relação entre nossas contas (trolls e bots), por isso todo cuidado é pouco”, diz.

Há, além disso, um objetivo permanente em todas essas operações: evitar padrões. “Cada conta que um troll dirige deve escrever diferente: as pessoas têm tendência a utilizar certas expressões e deixar padrões de escrita, como pôr dois pontos de exclamação ou terminar todas as frases com reticências”, conta.

Os ardis para enganar o Twitter são ainda mais destacáveis com os bots automatizados: “O software comanda todos os bots, que se dividem em grupos. Cada grupo utiliza uma API [ferramenta para usar automaticamente o Twitter]. E o endereço IP é variado de forma aleatória. Chegamos a ter 3.000 ou 4.000 contas em uma mesma API, e me consta que poderiam ser usadas até mais. O problema é que, se você tiver muitas contas tuitando direto sob uma mesma API, pode levar o Twitter a bloqueá-la”, explica. Embora essas ferramentas permitam administrar milhares de contas, é preciso personalizar cada uma delas com foto, nome e biografia. É um trabalho longo demais para que o Twitter derrube 2.000 perfis de uma vez.

4. Toda campanha tem um plano

Cada campanha é preparada com análise de dados e objetivos diários. Os bots e trolls não surgem do nada. Antes de uma campanha, cientistas de dados analisam a conversação pública sobre o tema que interessa ao cliente: um partido que deseja ampliar sua bancada, uma empresa que espera bater um concorrente, ou um time de futebol com problemas de credibilidade.

“Eles veem quantas contas estão participando de um tema e se estabelece quantas seriam necessárias para ter influência”, diz. Também é analisado o sentimento e os influencers desses assuntos: “São feitas listas de contas favoráveis e contrárias, e se analisa o peso que elas têm”, diz. Essa informação é chave para o funcionamento da campanha: “Serve para que o troll saiba com que usuários interagir, para gerar um núcleo com eles, a quais responder e perseguir com os beta, e com que usuários nem sequer vale a pena perder tempo. Não é a mesma coisa iniciar uma conta do tranco ou com uma quantidade imensa de informação. O troll alfa sabe a quem se dirigir, com que tom, e o que comunicar”.

Uma campanha pode chegar a custar um milhão de euros (6,2 milhões de reais). O cliente espera resultados concretos e demonstráveis. Uma campanha média pode exigir entre 1.500 e 2.000 bots e trolls.

Enquanto os usuários normais do Twitter entram na rede para ver o que acontece, estas operações envolvendo centenas de contas falsas têm um plano diário. É como se a cada jornada um chefe mafioso enviasse um grupo de asseclas a uma cidade com um plano delicadamente concebido para que executem uma série de missões concretas e semeiem o pânico sem serem detectados. O objetivo é fazer os cidadãos acreditarem em coisas que não são verdade: não só com notícias falsas, mas também com ações que sugiram que mais gente acredita em determinada coisa do que realmente ocorre. Seria como inflar uma pesquisa de opinião. Claro que frequentemente se enfrentam equipes que buscam justamente o contrário.

Isto não fica só na teoria. Seus efeitos têm consequências no mundo real. “As pessoas tendem a compartilhar sua opinião quando se sentem protegidas pela comunidade”, diz esse agente. “Houve um tempo em que muitos catalães não independentistas não publicavam suas ideias nas redes porque entravam no Twitter e tinham a sensação que meio mundo era independentista.”

Estas ações em redes permitem abrir o caminho para opiniões radicais. De repente, alguém vê que a crítica aberta a imigrantes ou mulheres está permitida. Talvez não seja feita com crueldade ostensiva, e sim com memes ou palavras em código, mas está lá. Não se sabe se essas contas são controladas por uma dúzia de empregados em um escritório.

5. Como enganar um jornalista

Frequentemente, os jornalistas não têm consciência de como é fácil lhes passar mercadoria falsa. Um dos motivos que levou @thebotruso a criar essa conta e querer contar sua experiência foi para tentar advertir dos perigos: “Quem trabalha na mídia nem sempre conhece esse ecossistema. De certo modo, é fácil enganar um jornalista. Eles estão sempre procurando informações e, hoje em dia, a Internet é uma fonte muito grande. Se um jornalista topar com seu conteúdo, vir que tem apoio e que se encaixa no que ele quer (ou precisa) comunicar, talvez pegue. As estratégias para cada caso são diferentes. Por exemplo: para uma empresa acusada de corrupção, criamos um ecossistema que defendia os postos de trabalho (trabalhadores preocupados com as medidas exigidas contra a empresa)”, explica.

6. Como manipular uma pesquisa no Twitter

Os bots são úteis para ganhar uma pesquisa na rede. Estes são os passos que esta agência seguia: “Detecta-se a pesquisa e se faz uma captura de tela. É feito um cálculo para saber quantos votos são necessários para virar os resultados, e o valor de cada ponto percentual. Tem início a operação para que a opção desejada vença. Monitora-se para ver que tudo funciona corretamente”.

7. A criação de um ‘trending topic’

As opções para conseguir um trending topic eram mais reduzidas, mas a estratégia era clara. A agência trabalhava durante dias para atingir seu objetivo. “A primeira coisa é escolher um dia e uma hora. Procura-se não coincidir com eventos como um jogo de futebol ou o Big Brother”, explica @thebotruso. “Escolhe-se uma hashtag, é importante que não tenha sido utilizada antes, porque são mais difíceis de posicionar. Aciona-se a equipe de redatores que escrevem milhares de tuítes durante vários dias para que sejam publicados pela rede de bots”, acrescenta.

Usuários reais também são avisados, para caso tenham interesse. “São enviadas comunicações a pessoas afins para avisar da ação: tal dia, a tal hora, sairemos com tal hashtag para nos queixar, convidamos você à ação para ver se conseguimos ser tendência e fazer que nos ouçam”.

Chega o grande dia: “Os analistas olham quantos tuítes são necessários para entrar nas tendências. Os tuítes são inseridos na plataforma de bots. O cliente dispara o primeiro tuíte. Rapidamente a rede de bots é acionada. É crucial que haja muitos tuítes em um espaço curto de tempo. Os trolls alfa saem com tuítes de impacto. Os analistas de dados monitoram para saber se é preciso disparar mais tuítes, ou se é o caso de frear a rede de bots. Os trolls beta apoiam a ação, respondem aos críticos, estimulam outros usuários com a mesma ideologia”.

Passada a missão, com sucesso ou não, é hora de dissimular as provas: “A ação dos bots é detida e limpa: as contas bot fazem tuítes e retuítes de outros temas para que, se alguém aparecer para ver essas contas, não veja que só entraram para fazer tuítes sobre o trending e foram dormir. Os trolls podem continuar tuitando por algum tempo, e depois farão uma limpa, como os bots”, acrescenta. “Finalmente, prepara-se um relatório para o cliente”.

E como tudo isso afeta quem o faz? “Todos estávamos conscientes do que estávamos pondo em jogo. E eu gosto dessa palavra: jogo. Sempre recomendei a todo mundo que encarasse como jogar War, porque é fácil encarar os projetos como algo pessoal, e às vezes é difícil administrar a diferença entre a sua conta troll e você. Por sorte, nunca tive ninguém de licença por depressão, ansiedade ou nada parecido”.

Reprodução :

https://brasil.elpais.com/tecnologia/2020-05-22/eu-fui-um-bot-as-confissoes-de-um-agente-dedicado-a-mentir-no-twitter.html